SEM PERDER A TERNURA
Che se vende como uma obra que mostra o lado humano de Ernesto Guevara, mas sua força política está em não ferir os princípios da revolução cubana
Por Raphaella Spencer

Uma história que se inicia em meados da década de 50, quando o ainda exilado Fidel é apresentado ao argentino Ernesto Guevara, passa pelo ideal de uma revolução armada, que se concretiza e leva um grupo de menos de 50 homens a saírem do méxico em direção a Sierra Maestra. Anos depois, essa força revolucionária chega a Havana com um novo governo socialista, primeiro e único a ascender na América Latina. Ascensão que inspira Guevara a sonhar com o ideal de levar a revolução a toda a América Latina, começando pela Bolívia, onde reunirá mais uma vez um grupo de jovens, mas dessa vez sem sucesso e que resultando em seu assassinato morte no meio da selva, conhecida por todos.

Mas como dar a essa história as nuances que nos levam a compreender o envolvimento do homem por trás do mito pop Che. A resposta de Steven Soderbergh para isso vem parcelada. O primeiro filme Che -O Argentino, utiliza um clássico cinemascope, com uma edição rebuscada e sofisticado tratamento de cores que nos mostra flashbacks do início da luta armada em Sierra Maestra contadas em entrevistas e rodas sociais, pelo Che, Ministro de Cuba, durante visita a Nova York em 1964, por ocasião de uma conferência da Onu.

Che -A Guerrilha, o segundo filme, é apresentado no formato widescreen padrão, opção por um formato simples como a crueza das imagens exibidas. Um Che prestes a fracassar em seu ideal de levar a revolução para toda a América começando pela Bolívia, onde se depara com a ignorância de um povo incapaz de entender os ideais revolucionários e a força do imperialismo americano por trás do governo vigente boliviano.

Dois filmes, que juntos tem quase cinco horas, que nos levam a uma imersão total ao universo revolucionário contado sob a ótica de Guevara, interpretado por um Benício Del Toro contido, que fez da introspecção de seu Che o traço mais humano da personalidade de seu personagem, atuação que mereceu o prêmio de melhor ator em Cannes 2008.

O primeiro filme nos aproxima do homem Ernesto Guevara, como se assistíssemos à construção imediata das imagens que ilustram as falas de alguém que nos conta uma história pessoalmente. Como a vez que recebeu ordens de Fidel, de assumir o recrutamento de novos combatentes, ali, numa cabana enfumaçada pelos charutos de ambos, como isso mexia com o brio do Comandante Che, mas como o respeito ao Fidel estrategista e idealizador da revolução, o fazia acatar e obedecer as ordens.

O filme foi exibido em Cuba, por ocasião do Festival do Novo Cinema Latinoamericano em dezembro de 2008. Foi entendido como uma obra que não atacava os princípios políticos da Nação e pode ser visto pelo público de Havana, o mesmo que construiu a mitológica figura “Del Che” e pode, agora, mergulhar no retrato mais humano feito até então do homem, parte de um grupo, que se destacou justamente por seu senso de coletividade, o mesmo que o levou aos maiores triunfos e fracassos.

NOTA: 7,5

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