Che - Os Últimos Dias de Um Herói

QUADRINHOS POLÍTICOS PELA CONRAD
Profundamente ligado à história política da Argentina, maior biografia de Che já escrita transformou em mártires também seus autores, como o autor Oesterheld, vítima da ditadura militar
Por Germano Rabello

CHE – OS ÚLTIMOS DIAS DE UM HÉROI
Hector Oesterheld (texto) e Alberto Breccia (arte)
[Conrad, 96 págs, R$ 34,90]

No finalzinho de dezembro do ano passado, com 2009 batendo à porta, chegou às livrarias Che- Os Últimos Dias de um Herói. Possivelmente por isso, não foi maior a sua participação nas inevitáveis listas de melhores do ano. Trata-se de um lançamento de peso, apresentando pela primeira vez em território nacional este importante nome da história das HQs mundiais, o falecido roteirista Hector Gérman Oesterheld (1919- 1977). O trabalho tem como trunfo as palavras certeiras de Oesterheld e ainda a arte de Alberto e Enrique Breccia (pai e filho, respectivamente). Tudo isso para contar a trajetória de uma das mais fascinantes – e controversas – figuras do século XX, Ernesto “Che” Guevara.

Vale aqui um parênteses. A história dos quadrinhos na Argentina ainda guarda muitos mistérios para o leitor brasileiro. Infelizmente, as editoras brasileiras não tem sido pródigas em publicar os autores portenhos. Este lançamento ajuda a reparar uma injustiça, sendo a primeira vez que H. G. Oesterheld é publicado no país. Ele foi um dos grandes impulsionadores do quadrinho argentino, criando diversos personagens, abrangendo diversos gêneros, colaborando com grandes artistas. E na época, roteirista de Quadrinhos não gozava do prestígio que hoje existe, imposto por figuras como Alan Moore ou Grant Morrison. Oesterheld conseguiu fugir do óbvio e criar séries clássicas como El Eternauta, Mort Cinder, Sgt. Kirk, Ernie Pike (estes últimos com Hugo Pratt – vale dizer que há uma interessantíssima passagem de artistas italianos pela Argentina dos anos 50).

Quanto a Alberto Breccia (1919-1993), trata-se de uma virtuose do desenho com domínio impecável do preto e branco, pelo qual é reverenciado até por artistas como Frank Miller. Infelizmente, também ainda não foi muito publicado aqui, e mesmo nos EUA seu único trabalho disponível é o thriller político Perramus (com Juan Sasturain no roteiro). Por outro lado, seu filho, Enrique, é conhecido dos leitores brasileiros em trabalhos como Lovecraft e algumas passagens com o Monstro do Pântano (vale ressaltar – todos trabalhos inferiores em relação ao que ele mostra em “Che”).

De fato, os quadrinhos argentinos, em que pese a popularidade da tirinha Mafalda, a eventual publicação da dupla Sampayo & Muñoz, e as descobertas recentes como Liniers e Eduardo Risso, etc. tem um passado fascinante a ser descoberto.

Sobre Che, o estilo da narrativa é fascinante e desafiador: o roteiro exige que o leitor procure se informar mais sobre o biografado, a arte oscila entre o realismo quase fotográfico e o estranhos contrastes de preto e branco, manchas que apelam ao inconsciente pedindo para serem decifradas. É ficar na torcida para que publiquem mais clássicos da dupla Oesterheld/Breccia por aqui, sobretudo com a adaptação de El Eternauta prevista para estrear em 2010 pelas mãos talentosas da também argentina Lucrecia Martel.

Para além de suas inúmeras qualidades, esta biografia em quadrinhos ligou a tragédia de Che a um tipo diferente de mártir: o escritor Héctor Germán Oesterheld, que foi preso em 1977 e “desaparecido” pela sangrenta ditadura na Argentina – por seus escritos cada vez mais politizados. Implacáveis, os militares ainda perseguiriam seus familiares e suas obras – reza a lenda que o desenhista Alberto Breccia teria enterrado as páginas de “Che” para que a obra chegasse até nós. Um militar argentino, ao ser perguntado sobre o paradeiro de Oesterheld, afirmou: “Demos um sumiço nele, por ter feito a mais bela estória do Che já escrita”.

A editora Conrad já havia lançado outra biografia de Ernesto “Che” Guevara, de autoria do coreano Kim Yong-Hwe. O guerrilheiro foi tema também de trabalhos do mexicano Rius e, mais recentemente, do americano Spain Rodriguez (inédita no Brasil). Mas o presente lançamento foi, na época de sua publicação original na argentina, a primeira biografia em quadrinhos de Che a ser publicada no mundo, pois saiu em capítulos, a partir de janeiro de 1968, três meses depois da morte do biografado.

NOTA: 9,0

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