Em sua estreia em álbum de estúdio após três mixtapes históricas, Chance The Rapper inicia nova fase misturando soul e rap

celebra a felicidade do casamento no disco The Big Day
NOTA7.5

Todos fomos convidados para o casório de Chance The Rapper. O rapper de Chicago, hoje um dos maiores nomes do hip hop norte-americano, está fazendo uma ode à felicidade. O que pode ser mais revolucionário que isso em 2019? Seu primeiro álbum chega como um trabalho conceitual sobre o matrimônio. The Big Day é como uma trilha sonora de um casamento e toda a felicidade envolvida.

Unir rap e alegria em uma proposta positiva, solar, sobre casamento e família, é algo não muito comum no hip hop, mas Chance nunca foi muito afeito a seguir cartilhas. Seu novo trabalho segue interessado em unir diversas influências, como o gospel e o pop em uma produção sofisticada. Ainda mais confessional, o rapper nos convida a acompanhá-lo até o altar, como se estivéssemos fazendo parte daquele momento único de enlace.

Ao longo do disco ele reflete sobre diversas questões, entre elas nostalgia, amadurecimento, espiritualidade, as dificuldades nos relacionamentos, paternidade e morte. “We Go High” relembra a trajetória de Chance (cujo nome verdadeiro é Chancelor Bennett, e sua esposa, Kirsten Corley) sem nenhuma vergonha de exacerbar no romantismo, como naqueles momentos de declaração no meio da festa de matrimônio. O mesmo vale para “The Big Day”, uma balada que oscila entre a calmaria e a euforia para fazer mais uma declaração: “eu não acredito / eu devo ser o cara mais sortudo do mundo”, canta Chance.

O disco é todo trabalhado no tom celebratório e é bastante longo, até mesmo para os padrões de Chance, sempre acostumados a discos mais extensos. Nessa festa grandiosa há diversos bons momentos e diversos convidados ilustres, como Megan Thee Stallion, que manda um verso todo gangsta em “Handsome”, em “Slide Around” e na linda “Zanies and Fools”, que encerra o disco com uma linda balada que tem toda cara de fim de festa, onde apenas os mais resistentes permanecem na valsa.

Como toda festa também há surpresas entre os convivas. Neste caso, o mais inusitado talvez seja Ben Gibbard do Death Cab For Cutie, que aparece em “Do You Remember”. Randy Newman também está aqui e participa em “5 Year Plan”, enquanto as CocoRosie fazem uma ponta em “Roo”.

Chance The Rapper soa convincente nos seus sentimentos e consegue traduzir todas as emoções e conquistas em seu matrimônio (ele e Kirsten estão juntos desde adolescentes e têm juntos uma filha, Kensli). Não é seu disco mais impactante, mas ainda é bem inspirado, tanto nas letras quanto esteticamente.

Falando em álbum, soa estranho chamar esse trabalho de uma estreia. A questão estilística do que seria um “álbum” acompanha a carreira de Chance desde o início. Ele lançou três mixtapes, a primeira em 2012, seguida de duas explosivas, Acid Rap em 2013 e o clássico Coloring Book, de 2016, que lhe valeu o Grammy de melhor disco de rap, sem ter, de fato, um “disco” em formato físico.

Esse “debut” de estúdio, como um trabalho incrivelmente pessoal, talvez marque uma nova e interessante fase de Chance The Rapper, hoje uma das vozes mais relevantes do rap americano. Vamos ver o que esse casamento nos traz.

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