Nova Iorque é um hotdog (Foto: Divulgação)

NOVA YORK É UM HOTDOG.
Irônica, chique, quase rude, direta, sem frufrus, assim é a Grande Maçã. Melhor deixar a pomba-gira sair e não dar uma de Carrie
Por Tatiana Severo, especial para O Grito!, de Nova York

Assim que eu entrei no saguão do Heathrow e vi a seleta e – para meu deleite – curta fila do check in da Virgin Airlines para Nova York comecei a cantarolar do topo dos meus pensamentos com a voz de Frank blue eyes – ‘New York, Neeeeew Yorrrrk´ Aperta o pause que a atendente do check in está falando.  Momentos depois, confortavelmente instalada na Premium Economy – a classe executiva da Virgin – e me refrescando com uma copa de vino servida em mini tacinhas de vidro, me senti a própria virgin. Again. Afinal, fazia anos que eu não visitava a Big Apple e ir assim, in style, já era um ótimo começo. Só falta o Charan charan charan charan chan-chan da música intro do Sex & The City. Mal sabia eu o que estava por vir.

Do vôo tranqüilo e entrada nos EUA sem atropelos na imigração, me vejo num JFK feio, triste e boring. Ah, mas aeroporto não tem que necessariamente refletir a cidade. Essa história de primeira impressão é a que fica é balela. Não era. Peguei uma Yellow cab e fui rumo ao hotel em Manhattan. No caminho vi o Empire State, o Crysler entre outras construções que marcaram a história da cidade. Tudo parecia microscópico e cinza. “Being Boring” do PetShop Boys no volume máximo em minha mente. Aperta o fast forward pela-mor-de-deuss!!!

Chegando ao hotel, alegria. Nada e sorrisos e conversa fiada. Ao invés disso, serviço eficiente. Prefiro serviço eficiente a sair fazendo amizades por onde passo. Em poucos minutos eu estava entrando no quarto já carinhosamente preparado para o dia de São Valentin pelo meu not-so-secret Valentine. Após um banho e usufruto de todos cosméticos e apetrechos a disposição no banheiro, resolvi pedir um lanchinho rápido enquanto relaxava e esperava a chegada do meu Romeo que estava, diferentemente de moi, na cidade a trabalho. Dei uma olhada rápida no cardápio, peguei o telefone e apertei o botão com o desenhinho de um garçon com uma bandeja.

Para minha frustração achei a maneira de falar da atendente do serviço de quarto muito direta, meio impaciente, beirando rude. Daí me dei conta. Estou em Nova York. Aqui tudo é rápido, ninguém perde tempo com futilidades como cordialidade com uma cliente indecisa. Aí estava minha primeira lição de como se integrar ou be a part of it : fale rápido e seja preciso. Principalmente quando estiver fazendo um pedido em um restaurante ou qualquer outro lugar onde o produto final seja comida. Não titubeie e não espere bate-papo.

Mais tarde, caminhando de mãos dadas pela Times Square, me vi, pela primeira vez, sendo puxada pela mão do meu marido como se eu precisasse andar mais rápido. E ao apertar o passo vi que não era nada urgente, mas sim outra característica da vida da cidade. Anda-se rápido em NYC. Não se para no meio da calçada para se tirar fotos aleatoriamente. O jeito é tirar milhões de fotos mentalmente e seguir em frente. Brincar de turista aqui, não vai ser fácil, resmunguei baixinho.

Na segunda-feira, meu marido saiu cedo para trabalhar e eu tinha uma maçã inteira para degustar. Coloquei meu vestidinho e meus saltos à lá Carrie e fui passear pela quinta avenida já com a musiquinha do seriado tocando no plano de fundo da minha mente. Ao descer do táxi, me deparei com uma bela fossa a quase arruinar meus saltos tamanho 12. Com um pouco de traquejo, consegui chegar a uma parte seca da calçada. Mas para meu desespero, não tinha Gucci que justificasse o malabarismo que é andar pelas ruas desniveladas e sujas da cidade. Me senti na Vinte-e-Cinto de Março ou pior na Rua das Calçadas. Consegui andar um pouco e entrar na Saks torcendo poder flaglar uma Winona-wanna-be em ação e me dei conta que não adianta querer dar uma de Sarah Jessica Parker. Na Nova York de verdade tem que ter muito jogo de cintura para explorar a cidade e acompanhar o passo apertado dos locais. Consegui ambos. Tudo sem cair do salto. Literalmente.

Na terça a tarde, após um passeio nada romântico de charrete- que assim como os táxis exigem de 15 a 20% de gorjeta – fomos comer num restaurante asiático muito bom, pertinho do Central Park. A comida era ótima e o serviço eficiente e assim como no hotel, nada de bate-papos ou sorrisos jogados a torto e a direito. Foi quando meu marido me lembrou de mais uma das consideradas gafes no livrinho de etiquetas de New York. Não deixe moedas ao pagar a conta. Mas moeda não é dinheiro? -pensei cá comigo. E ele me relembrou da minha briga com um atendente paquistanês numa estação de metro de Londres que ao ver minha tentativa de me livrar das minhas moedas comprando a passagem, indagou se eu havia pedido esmola perto do Big Ben. Como não estava a fim de fazer dramas, desisti da idéia de me livrar dos meus quarters. Por hora.

Uma das coisas mais intrigantes da cidade é realmente o clima. Completamente imprevisível. Dias ensolarados antecedem noites de ventos fortes e um frio de arrepiar a espinha. Nada como layering… várias camadas de roupa que podem ser acumuladas ou retiradas dependendo da temperatura. E não esqueça de levar um guarda-chuva no kit de necessidades básicas. Em pleno inverno, se passa pelo calor úmido do Rio ao frio e ventos congelantes da serra gaúcha. E foi justamente numa tarde friorenta que resolvemos ir até a estátua da liberdade só para descobrir que não se pode mais ir ao topo dela. Ficamos lá esperando a próxima balsa chegar e, sentindo minha frustração com a big Apple, minha outra metade da laranja sugeriu: vamos às compras! Eu dei um sorriso complacente.

Bom, já que não tinha como dar uma de Carrie, vamos dar uma de Rebecca e ver que benefícios Nova York e seus outlets trazem para uma shopaholic. Quem sabe não seja eu a próxima garota da echarpe verde? Haha. As compras realmente valem à pena. Muitas grifes famosas com preços convidativos e vários designers novos por descobrir. Saímos exaustos e ilesos, eu e meu cartão de crédito. Meus ânimos melhoraram.

À noite fomos para uma baladinha de despedida do curso de treinamento que meu marido estava coordenando. Lá pelas tantas terminamos num bar meio boate no East Village com nome bem sugestivo. The Cock é um mix up do GLS e parece ter orgulho do seu visual chique-escroto. Com vários ambientes, DJs, drag queens como hostesses e go-go boys quase como vieram ao mundo. Um luxo! Parada desce, moço! Deixei a pomba-gira sair e me diverti até sermos basicamente expulsos de lá.

Morta de fome, implorei para comer um hot-dog no meio da rua. E para minha satisfação nada dos oitocentos e cinqüenta cacarecos que a gente encontra num dogão no calçadão da Praia de Boa Viagem. Já na metade do cachorro-quente, notei uma placa ali perto que dizia “Welcome to New York – We  don’t like you either” e a ficha caiu. O hot-dog da cidade não poderia refletir mais o espírito nova-iorquino: pão, salsicha e mostarda. Prático, direto, sem frufrus. Tolerância zero. Irônico e chique. Simples assim, disputado às 4 da manhã, como Nova York.  E eu, já integrada, não perdi tempo: pedi bis. E ainda me livrei dos quarters. Charan charan charan charan chan-chan, Charan charan charan charan chan-chan.

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