ÓTIMA INFRAESTRUTURA SUBSTITUI CRIATIVIDADE NA SALA DA JUSTIÇA
Centro de Convenções recebeu heróis e arremedos de improviso no último sábado

Por Rafaella Soares
Repórter da Revista O Grito!, em Recife

A antiga fábrica Tacaruna (que sediará a edição 2010 do Abril pro Rock), abrigou por um bom par de anos a prévia do bloco Enquanto Isso na Sala da Justiça, famosa por arregimentar gente debaixo de chuvas em shows concorridos. A versão olindense sai aos domingos em Olinda e arrasta foliões vestidos de super-heróis, numa alusão ao desenho Super-Amigos, e tornou-se tradicional uma semana antes do Carnaval propriamente dito. O sentido original, a reunião de pessoas vestindo roupas míticas em histórias em quadrinhos, foi se diluindo e deu lugar a bem sacadas produções cheias de trocadilho com atualidades e habilidades moderninhas dos geeks e antenados de modo geral.
Quem não lembra do garoto reproduzindo um gigante “IPod – Aí pode não!”, no ano em que a Apple lançou o gadget?!

Super-peruas, super-maconheiro, super-alguma-coisa proliferaram aos montes, e, inevitavelmente, o It da festa, a fantasia elaborada, foi dando espaço à qualquer coisa – de joaninhas a pessoas sem adereço algum. Mágoa xiita à parte, a Sala mudou de endereço e hoje é uma bem estruturada e rentável festa no Centro de Convenções, com a refrigeração e os estandes de cerveja padronizados que convém à uma marca, coisa de gente grande que se profissionalizou.

Na edição 2010, a sala preparou um staff previsível e por isso mesmo infalível. A Orquestra Popular da Bomba do Hemetério e seu Maestro Forró presepeiro azeitou a noite para o show mais demorado do que deveria da cantora Mart’nália. À vontade com o público e setlist – alguns clássicos do samba composto por seu pai – , a cantora segurou uma plateia que, obviamente, e ad eternum estará instigada para a Nação Zumbi, seja no Marco Zero, no Estúdio SP, ou pagando até R$ 80 para ver o repertório comemorativo dos 15 anos da pedra fundamental do Manguebeat, Da Lama ao Caos (1995) pela milésima vez em Recife? E quem acha ruim? Nossa pepita mais pesada que uma tonelada.

Mórbido aniversário também, os 13 anos da morte de Chico Science, falecido no Carnaval no Complexo de Salgadinho, poucos metros dali, e homenageado numa exposição vultuosa no Centro Itaú Cultural (SP), também foi lembrado. O som estava com problemas no início, nada que ofuscasse as primeiras notas/versos de “Monólogo ao pé do ouvido”, clássico daqueles que evocam um sentimento de pertencer a algo organicamente. As participações de B Negão e Fred 04 contribuiram para uma noite de calor humano imbatível aos adventos da refrigeração e verdadeira maratona musical.

Lá pelas 4 e tantas da manhã, a banda Eddie era anunciada pros mais resistentes química ou mentalmente. “Casa caiada”, “Lealdade”, “Desequilíbrio”, “Vida Boa”, só pedra de lugar garantido no coração dos fãs. Seria um show fodasso, tivesse sido mais curto: a duração não necessariamnete indica movimentação initerrupta no brilho da noite. No apanhado geral, a escalação vem se mantendo excelente pra quem gosta de boa música: Orquestra Imperial, que faz ode aos velhos bailes (2008), Jorge Ben e Instituto cantando Tim Maia Racional (2009) e os medalhões de Pernambuco este ano. Ponto para as escolhas, demérito de quem curte a festa e contribui para sua descaracterização.

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