Um Cais da Alfândega lotado durante o encerramento da 17ª edição do Rec Beat recebeu Criolo para a legitimação de seu hype e de toda a repercussão positiva que ele teve ano passado. Considerado uma das revelações da música pop brasileira ano passado, ele foi ovacionado por um público que sabia cantar todas as suas letras e não parava de chamar o seu nome. Foi uma apresentação muito explosiva, marcada por discursos apaixonados do rapper e uma homenagem-protesto contra a desocupação da comunidade de Pinheirinho (ele usava pinheiros de papel no braço e no pedestal do microfone).

Leia Mais:  
Quanta Ladeira tira onda com Wando e Whitney
 
Rec Beat reve­ren­cia ele­trô­nica com Silver Apples e Systema Solar
 
Guitarra pop de Siba é des­ta­que no pri­meiro dia de Rec-Beat
 
Festa Odara trans­forma Pátio de S. Pedro em imenso baile gay

Leia Mais: Criolo
Crítica do disco Nó Na Orelha
Criolo impressiona no vídeo de “Freguês da Meia-Noite

Foram mais de dez músicas retiradas de seu primeiro disco, Nó Na Orelha, lançado para download gratuito ano passado. Faixas como “Subirusdoistiozin”, “Lion Man”, “Não Existe Amor em SP” e “Grajauex” foram cantadas pela multidão. No meio do repertório ainda incluiu um coco e improvisou “Eu Só Quero É Ser Feliz”, clássico do rap nacional. Carismático, Criolo chegou com a camisa da banda pernambucana Devotos, dançando do seu jeito estranho meio robótico, dando pulos e falando – ou melhor pregando – para a plateia.

Ainda que suas músicas por si só sejam poderosas misturas de ritmos, ele seguiu com o tom missionário, de pregação. Para quem não é fã incondicional do cantor ou esteve imune à toda sua popularidade conquistada no ano passado, esse tom de “eu trago a Verdade, irmãos”, compromete um pouco o envolvimento com o show. Criolo criticou duramente drogas – até mesmo o alcóol -, falou do preconceito contra nordestinos, racismo e atacou o que ele chamou de “música para burro”, referência talvez ao mainstream de sucessos como “Ai Se Eu Te Pego”, etc. E nisso ele foi levando no papo uma multidão completamente hipnotizada: “Pau no Cu dos comédia”, disse para arrebatar.

No seu primeiro show no Recife e talvez sua apresentação com o maior número de pessoas, ele ainda escorregou em alguns clichês de artistas que chegam por aqui, um tantinho deslumbrados: vestiu camisa com a bandeira de Pernambuco, soltou frases como “faz barulho”, “tira o pé do chão” e colocou no seu discurso o fato de ser filho de nordestinos. Tentou até mesmo cantar no meio do povo – mas não conseguiu dar a volta pelo backstage para chegar até a grade de proteção. Teve de ficar – ironicamente – no lugar mais privilegiado do festival, o fosso usado pelos jornalistas e fotógrafos.

Ao vivo, Criolo correspondeu ao seu ótimo primeiro disco. Trouxe elementos de samba, reagge, rock, enfim, deu um sopro de vida ao Hip Hop, um estilo que poucas vezes conseguiu chegar ao grande público, que dirá formar um ídolo. Apesar de parecer novato para muitos, o então rapper Criolo Doido batalha na cena independente por mais de 15 anos, quando participava da Rinha de MCs. Conseguiu o sucesso quando lançou Nó Na Orelha, um disco bem produzido por Daniel Ganjaman, presente no show. A comoção que causou no encerramento do Rec-Beat esta terça é uma coerente confirmação do talento e da inovação que trouxe ao rap no Brasil.

A última noite do Rec-Beat ainda teve a cantora Cibelle, a cubana Yusa e Dona Onete, do Pará, que relembrou os momentos de atitude roqueira dos festivais locais que misturavam novos nomes com músicos tradicionais. [Por Fernando de Albuquerque e Paulo Floro. Fotos por Caroline Bittencourt / Divulgação]

Sem mais artigos