ESTUDO MÓRBIDO
Filme tenta entender as motivações de Chapman, famoso assassino de Lennon
Por André Azenha

CAPÍTULO 27 – O ASSASSINATO DE JOHN LENNON
J.P. Schaefer
[Chapter 27, 2007]

Filmes que retratam “in loco” a morte de alguma figura famosa sempre despertam um tipo de morbidez na platéia. Foi assim com Helter Skelter, sobre o bando de Charles Mason que assassinou a atriz Sharon Tate, e até com Last Days (de Gus Van Sant), que extra-oficialmente mostrou os últimos dias de vida do vocalista e guitarrista do Nirvana, Kurt Cobain. Não importa se os acontecimentos são narrados a partir do ponto de vista da vítima ou do assassino (ou suicida), sempre há uma fatia da platéia interessada nesse tipo de produção.

Capítulo 27 – O Assassinato de John Lennon acompanha três dias na vida de Mark David Chapman, o assassino do ex-beatle – Lennon, foi morto em 8 de dezembro de 1980 (pelo fã a quem tinha dado um autógrafo horas antes), em frente ao edifício Dakota (onde morava) ao voltar de um estúdio com a esposa Yoko Ono.

Com o intuito de tentar entender as possíveis motivações de Chapman, o diretor e roteirista J. P. Schaefer enfatiza a obsessão do criminoso pelo livro O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger (sobre um adolescente revoltado, que odiava a falsidade), e o mostra como um sujeito esquizofrênico, que distorce as palavras do astro e se revolta ao saber, através de uma entrevista, que Lennon era contra ao retorno dos Fab Four (por isso ele seria “falso”), e que o reencontro do quarteto não se daria “por que simplesmente um bando de pessoas não havia visto a banda no auge”.

Mas não há uma tentativa de criar um estudo mais profundo sobre o personagem central. O público não fica sabendo nada sobre o passado dele (a não ser por algumas palavras ditas em off) e Lennon é mostrado apenas de relance – jamais o rosto do intérprete do cantor é revelado.

Talvez o único ponto a favor da produção seja o esforço de Jared Leto (Requiém Para um Sonho) na composição de seu personagem. Ele ganhou cerca de 30kg para viver o assassino, se aproximando bastante do verdadeiro visual de Chapman. É o tipo de papel que poderia lhe render algumas indicações a em festivais e premiações, mas acabou prejudicado pelo fato do filme ter passado praticamente em branco.

No elenco ainda há a bela Lindsay Lohan, que não tem muito a fazer como uma das fãs com quem Chapman conheceu poucos dias antes do assassinato.

Soando perdido com um material tão polêmico em mãos, J. P. Schaefer acaba misturando a estrutura (porém de forma bem menos competente) de dois filmes de Gus Van Sant. De Last Days, ele tenta mostrar a intimidade da figura central durante os dias que antecedem a tragédia. E de Elefante, busca retratar a forma como uma pessoa pode distorcer os fatos para tornarem-se criminosas.No filme que mostrava como teria acontecido o massacre na Escola de Columbine, a dupla de estudantes autora das mortes gostava de games violentos. Aqui, Chapman (que chega a citar Charles Mason, outro sujeito que justificou sua loucura a partir dos Beatles) leva ao pé da letra (sem querer criar um trocadilho) o que o popstar falava.

É aquela velha história: os artistas não têm culpa de como a mente do ser humano pode reagir. E Capítulo 27 é o tipo de filme que pode despertar indignação de muita gente. Afinal, como investir dinheiro e tempo para criar um filme sobre um assassino? Essa foi a pergunta feita pelos fãs de John Lennon que boicotaram a obra e acusaram-na de glorificar o homicida do compositor.

E o fato da produção ter passado praticamente em branco em festivais mundo afora, tornaram o longa-metragem uma incógnita no mercado cinematográfico, o que pode fazer com que vire “cult”. Aí vai da sua escolha, caro leitor, em se interessar ou não em conferi-lo. O DVD está aí.


Trailer

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