FIM DO SONHO
Publicado ainda em 2007, episódio da morte do Capitão América só chega ao Brasil com um ano de atraso, mas ainda rende debate sobre como o herói azulado levou consigo alguns valores da América
Por Paulo Floro

Capitão América foi morto a tiros na escadaria do Tribunal de Nova York. Ele estava preso por se opor à lei de registro de super-humanos e iria depor. A polícia ainda não tem pistas do autor do disparo fatal, mas um suspeito foi capturado. Steve Rogers faleceu a caminho do hospital. A manchete pode soar velha ao leitor brasileiro, mas é uma novidade que está estampada em todas as bancas de revista do país.

O episódio da morte do Capitão América só ganhou tradução para o português um ano depois do acontecido. E não pode passar em branco já que o herói lutou contra os nazistas na Segunda Guerra, foi líder dos Vingadores, se opôs ao registro de super-humanos na Guerra Civil e viveu seus últimos anos na clandestinidade. Fim do sonho americano? A resposta, positiva ou negativa, é sintomática da falência do american way of life e da necessidade intrínseca de renovar os mitos e o imaginário de uma população.

Quando Capitão América morreu, a imprensa ianque e de várias outras nações, incluindo a brasileira, deram relevância ao fato e passaram a “cobrir”, como se de fato existisse um Sentinela da Liberdade em nosso mundo real. E não existe? O que jornalistas, comentaristas e demais pessoas na imprensa perceberam foi o gancho para abordar certa decadência dos valores políticos representados pelo herói. O jornal Daily News, por exemplo, deu capa em sua versão on-line para o fato e entrevistou o criador Joe Simon, hoje com 91 anos, que afirmou não haver pior momento do que o atual para a morte do personagem.

Jack Kirby, ao lado de Simon, criou o personagem em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial. A revista do herói vendeu mais de um milhão de exemplares quando lançada e tornou seus autores e a editora Timely (hoje Marvel Comics) famosos nos EUA. A história da personagem é bem simples: Steve Rogers era um garoto franzino de Nova York que queria servir ao exército, mas não tinha aptidões físicas para isso. Foi então que aceitou participar de um projeto secreto do governo norte-americano que o transformou num supersoldado.

Desde então ele passou a cumprir uma agenda que envolvia os diversos valores propagandísticos da liberdade e da moral americana. Neste aspecto, o Capitão América é ainda mais escoteiro que Superman, outro a se vestir de Estados Unidos, mesmo sendo de outro planeta. Montado com as cores da bandeira, estrela no peito, Steve Rogers combateu os nazistas e por anos foi um símbolo no imaginário do americano comum.

Há alguns anos roteiristas da Marvel deram novo direcionamento ao personagem. Quem acompanha as histórias, há pelo menos três anos passou a perceber outra nuançe no herói. O que é coerente, já que a trajetória do personagem acompanha o desenrolar histórico dos EUA e de como seus valores se comportam nas conjunturas políticas. Se antes, Capitão América era o ícone americano lutando contra o mal no front alemão, hoje em dia seria inconcebível o ver combatendo ao lado das tropas ianques no Iraque. Por pressões de editores e autores, a Marvel conseguiu não colar à imagem do herói em campanhas do Oriente Médio.


New York Times noticia morte do personagem: simular o real para criticar a política e valores dos EUA

Outro Lado
O que o roteirista Ed Brubaker conseguiu evidenciar é que a moral de Steve Rogers continua intacta, mesmo que a bandeira que veste e o país que representa não façam jus à ele. Brubaker é um dos melhores escritores que o personagem já teve e um dos responsáveis pela retomada do sucesso que o título vive hoje. Nos arcos anteriores à morte, por exemplo, são mostradas cenas de corrupção dentro de agências do governo americano.

A morte do Capitão América também faz parte da interessante saga Guerra Civil, que colocou os personagens da Marvel em conflito. O Capitão foi contra a atitude de seu antigo aliado, o Homem de Ferro, em tornar obrigatória a lei de registro de super-humanos. Sua oposição aos modos reacionários e a luta contra o sistema a favor da liberdade dos super-humanos, mostrou que não faz mais sentido usar o personagem como elemento figurativo de valores puramente norte-americanos.

Após se opor à lei, Rogers e um grupo de heróis entraram na clandestinidade, forjaram novas identidades e passaram a conspirar contra Homem de Ferro e o Governo, que passou a caçar super-humanos não registrados. Após o embate final entre os dois heróis, Capitão América é preso e acaba morrendo num plano arquitetado pelo Caveira Vermelha, seu principal vilão.


Ed Brubaker reformulou o título e subverteu o que se esperava do Capitão América

Morte do sonho
Claro que mortes nos quadrinhos são comuns. Ressurreições mais ainda. Tudo fruto de um projeto editorial para chamar atenção dos leitores, da mídia e no fim de tudo vender mais revistas. Nenhuma, no entanto teve tanta repercussão quanto esta. O responsável por tudo isso é Ed Brubaker.

Em se tratando de relevância na nona arte, A Morte do Sonho (publicada por aqui na edição 49 da revista mensal Os Novos Vingadores), fica ao lado da clássico A Morte do Capitão Marvel, de Jim Starlin, uma das mais depressivas e tocantes histórias já feitas nas HQs e uma das mas inovadoras no estilo realista de contar histórias. Brubaker conseguiu um feito narrativo também impressionante. Em poucas páginas, remonta a origem do personagem, o mata e ainda repercute a morte dele com heróis que estavam próximos ao fato.

Mesmo numa história em que todos sabiam o final, Brubaker consegue manter a tensão até os últimos quadros. E com toda a polêmica e falatório envolvendo o fato, A Morte do Sonho é tão boa que sustenta todo o marketing em torno de si mesma. A arte de Steve Epting, de traços sóbrios, colabora para tornar a ambientação ainda mais realista. Agora é torcer para que o inconstante editor-chefe da Marvel, Joe Quesada, não banalize a morte do herói e o traga de volta do mundo dos mortos.

CAPITÃO AMÉRICA – A MORTE DO SONHO
Ed Brubaker (texto) e Steve Epting (arte)
[Publicado em Os Novos Vingadores 49, 108 págs, R$ 7,50, Panini]

NOTA: 9,0

Sem mais artigos