Personagem carismática, poderosa, que dá um olé na hiperssexualização e que não tem dependência romântica com ninguém. Por que demorou tanto para surgir um protagonismo feminino de fato em filmes de heróis?

Esquemático e protocolar, segue muito o esquema de dezenas de outras superproduções hollywoodianas estreladas por super-heróis. Porém, o longa protagonizado por tem charme e relevância suficientes para dar um novo gás a um subgênero cinematográfico que caminha para uma saturação. O filme traz algumas quebras de paradigmas que podem fazer dele um marco para um novo momento da Marvel nas telonas.

Ambientado nos anos 1990, o filme traz a história de Carol Danvers, uma piloto de testes da Força Aérea norte-americana que acaba indo parar em Hala, planeta-natal dos Kree, uma raça alienígena humanóide que vive em guerra contra os Skrull, aliens verdes transmorfos do queixo enrugado que vivem errantes pelo universo. Desmemoriada, ela acaba chegando à Terra onde começa a descobrir mais sobre seu passado e como se tornou uma pessoa superpoderosa.

Como todo filme de um novo personagem, Capitã Marvel gasta parte de sua trama explicando a origem da personagem, mas faz isso de maneira dinâmica através de flashbacks e também interligando a história com diversos outros filmes da Marvel, o que torna tudo interessante. É explicado, por exemplo, como Nick Fury (Samuel L. Jackson) perdeu o seu olho e como ele chegou a um alto nível dentro da S.H.I.E.L.D..

Mas o que torna o longa tão interessante é o quanto ele ressoa dentro do seu universo cinematográfico e como ele pode quebrar barreiras estabelecidas na indústria. Este é o primeiro filme da Marvel Studios estrelado por uma heroína e também o primeiro codirigido por uma mulher (Anna Boden dirigiu a produção ao lado de Ryan Fleck). A dupla conseguiu aproveitar diversas boas ideias de diversos filmes da Marvel, mas calibrou tudo com uma mescla de humor, ação e desenvolvimento da personagem. Ainda estão aqui as piadinhas pontuando as lutas coreografadas, o tom otimista, a paleta solar e colorida da fotografia e personagens coadjuvantes cheios de graça (o gato Goose é impagável!). Mas há também um contraponto interessante da busca de um novo tipo de super-heroína, com um cuidado aparente em relação à representatividade.

Brie Larson é parte importante dessa equação. A atriz consegue trazer nuances para sua personagem, o que por si só é bastante complicado quando falamos de um longa tão pirotécnico e exagerado, típico de uma assinatura Marvel nas telonas. Ela é ousada, impulsiva, mas possui empatia com os mais fracos. Tem um senso rígido de justiça, mas não é ingênua. Consegue trazer profundidade em diálogos fugindo daqueles momentos clichês em filmes de ação onde os personagens emplacam conversas longas e melosas. Larson ganha a plateia com seu bom humor e carisma, tanto em momentos recheados de adrenalina como nos mais prosaicos.

Larson é a alma do filme: carisma até em cenas de ação. (Divulgação).

O longa não é o primeiro a contar com uma heroína como protagonista, porém é um dos poucos a romper com algumas lógicas das narrativas de ação estreladas por mulheres. Pra começar, a Capitã Marvel não tem nenhum interesse amoroso. Suas motivações – assim como diversos filmes estrelados por homens – diz respeito a outras questões, como a descoberta de sua origem e sua ligação com a terra natal. Portanto, não temos como vulnerabilidade sua relação romântica, como é o caso de Mulher-Maravilha de Gal Gadot.

Aqui também não há hiperssexualização da personagem, com uso de uniformes nada confortáveis para lutar. Carol Danvers veste uma roupa tecnológica perfeita para viagens interplanetárias. Nada de salto alto ou tomadas que destacam poses sensuais, como vistos em Atômica com Charlize Theron (ou Mulher-Gato, Elektra, as aparições da Viúva Negra em Vingadores e dezenas de outros).

Outro ponto a favor do filme é o modo como o longa trabalha o protagonismo feminino de maneira legítima e sem concessões. O inglês Jude Law, que aparece como o mentor de Carol Danvers na arte do combate é desmascarado em seu comportamento tóxico de querer ser “responsável” pelo sucesso da sua aprendiz. “Não tenho nada a provar a você”, diz a personagem de Larson em certa altura do longa. A relação dela com Nick Fury, aqui mostrado em sua versão jovem, é construída à base da cooperação e o entrosamento entre os dois é um dos pontos altos do longa.

Capitã Marvel é o filme que melhor trabalha o protagonismo feminino de fato nos filmes de ação. Isso é algo tão poderoso que mexeu com o brio de marmanjos nerds leitores de quadrinhos, que se enfureceram com o filme a ponto de pedirem boicote e fazerem birrinha nas redes sociais. O ataque machista não logrou êxito, já que o longa bateu recordes de bilheteria e se tornou um dos maiores sucessos da Marvel na história.

O longa tem sim seus problemas, mas são todos inerentes à estética em que ele está inserido. Para quem não curte filme de super-heróis fantasiados, convém ficar longe. Mas, para quem acompanha a trajetória da Marvel nos cinemas, vai perceber que este é um filme que se diferencia dos demais no que tem de inovador. Que este seja o primeiro de muitos longas estrelados por personagens mulheres.

A Marvel segue apostando na personagem. Tanto que já está anunciado que ela retornará em Vingadores – Ultimato, onde deverá encarar Thanos, finalizando o que dezenas de heróis homens não conseguiram.

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