DILEMAS DA LUZ
HQ do coletivo O Contínuo propõe ousadias narrativas e estéticas
Por Paulo Floro

CÂNCER
Dalton Correa Soares (texto), Mathé e Olavo Costa (arte)
[O Contínuo, 32 págs, R$ 6,90]

Muito se discute a função dos quadrinhos enquanto arte, mas há poucas obras que proponham uma experimentação além do puro entretenimento. E nos quadrinhos independentes brasileiros, esse tipo de HQ é ainda mais reduzido. Por este motivo, Câncer, do coletivo O Contínuo causou tanta estranheza e surpresa aos leitores.

Idealizada desde o ano passado, Câncer tem uma das mais ousadas narrativas da arte sequencial lançada este ano. Sua história apresenta o processo criativo de Diego, artista imerso numa cidade hiper-movimentada e caótica. Na escuridão, ele tentará compreender os significados de sua produção, além de refletir sobre as referências que ele utiliza – sendo ele próprio, uma.

É a opressão da luz que irá funcionar como fio narrativo da HQ. Foi a luz do sol que fez o braço de Diego se deformar até se assemelhar a uma pata de caranguejo. Também é a luz que permite inovações na ilustração, nas cores e na perspectiva dos desenhos. Todas essas questões são abordadas de forma caóticas, semelhantes a um fluxo de consciência, em interlúdios complexos, em contraste com quadrinhos que retratam uma cidade com muita luz.

A obssessão com a luz é tal que o protagonista Diego se transformará, ele mesmo, num espectro de luz, como se houvesse atingido uma espécie de iluminação. Os desenhistas Olavo Costa e Mathé lotaram de signos toda a história, e por mais que a HQ ameaçasse se tornar pedante, o desafio de buscar uma compreensão à trama torna a leitura ainda mais interessante. São tantas questões levantadas nas 32 páginas, que o leitor fica ciente de se tratar mais de uma intricada obra de arte que uma HQ convencional.

O Contínuo é um dos selos de quadrinhos independentes mais prestigiados no país. Conhecidos por suas narrativas urbanas, já lançou desde 2005, seis números da revista que batiza o selo. Câncer é a primeira edição especial e demorou a ficar pronta. Iniciada em 2006, foi para a gráfica só em abril, quatro dias depois que o desenhista Mathé embarcasse para a Europa. Bem editada, cumpriu bem o papel de apresentar uma experiência narrativa e visual, mesmo que, assim como a feitura da HQ, sua leitura também seja dura.

NOTA: 8,5

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