O velho Buk: uma vida inteira revelada nos livros (Foto: Divulgação)

O BUK DO CHINASKI
Reedição de Ao Sul de Lugar Nenhum evidencia força de seu alter-ego mais conhecido

Por Bruna Galvão
Colaboração para a Revista O Grito!

Para alguns, vulgar. Para outros, completamente pornográfico. Há ainda os que discordam de tudo isto e o dizem como “seco” e “direto”. Na verdade, o escritor germano-estadounidense Charles Bukowski (1920-1994) é tudo isto e mais um pouco: sua literatura é desprovida de pudores, pudores estes que causam diversos tipos de embaraços em outros autores e obras. O livro de contos Ao Sul de Lugar Nenhum- histórias da vida subterrânea (L&PM, R$ 19,90), lançado pela primeira vez em 1973 e que retorna às livrarias novamente, traz 27 histórias repletas de sexo, bebidas, farras, crimes e contas à pagar. Mas como qualquer ser humano de qualquer lugar do mundo, também se sujeita à algumas doenças, trabalhos, sonhos, decepções e sexo e mais sexo.

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A vulgaridade é o pano de fundo de cada uma destas histórias e seus personagens, em sua maioria, contém a ‘sujeira’ dos meios marginalizados (subúrbios e arredores) e a maleabilidade ideal para lidar com elas. Assim, cometer ou não um assalto e/ou assassinato, pagar ou não o aluguel, praticar sexo (muitas vezes à força) com alguém são situações tão corriqueiras nos contos, que a impressão que se tem é que não há nenhum Bukowski por trás delas: seus personagens movem-se sozinhos. Além da escrita ágil e prática de Buk como um todo, no conto “Nenhum Caminho para o Paraíso”, esta ideia da observação passa pela sua cabeça: um casal ao observar seres humanos em miniatura (brigando, transando e o que mais tiverem vontade de fazer) sente prazer em admirá-los naquelas situações- um prazer que passa pelo sexual.

Como o escritor cresceu na cidade de Los Angeles, no estado americano da Califórnia, suas histórias também acontecem por lá. Muitos fatos e personagens são tirados da própria vida de Bukowski, marcada pelo alcoolismo e por violências domésticas na infância. Henry Chinaski, o nome mais marcante em sua obra por ser seu alterego, aparece cerca de 10 vezes em Ao Sul de Lugar Nenhum. O personagem, que normalmente relaciona-se à escritas, bebidas e situações que sempre são ou pertubadoras demais ou vitoriosas em excesso para ele (mas sempre divertidas para o leitor), remete claramente à um Bukowski atormentado pela vida, mas que não se contenta com tudo que lhe aparece. Em “Confissões de um Homem Suficientemente Insano para Viver com as Feras”, Chinaski, em determinado momento da narração, casa-se com a editora-chefe de uma revista, após corresponderem-se por algum tempo por cartas. Um fato semelhante ocorreu na vida de Buk, que tal como o personagem, envia exaustivamente seus textos para editoras e revistas, na tentativa de serem publicados e em um destes lugares, a resposta foi além de um “sim” da editora responsável (Barbara Fyre): ela e Bukowski realmente se casaram repentinamente após um relacionamento por correspondências (mas assim como na história, eles também se separaram).

O autor em retrato para a revista Billboard (Foto: Reprodução)

Uma das maiores referências literárias de Bukowski, o conhecido escritor americano Ernest Hemingway (1899-1961) vira personagem de alguns dos contos de Buk. Em “Classe”, Chinaski (sempre ele!) propõe-se a lutar boxe com Hemingway (que realmente dedicava-se à atividade em seu cotidiano) e adivinhem de quem foi a vitória? Henry Chinaski, sem faixas nas mãos, sem protetor bucal e com sapatos completamente impróprios para a situação, nocauteou Hemingway em uma bela luta. Como o brilho de seu alterego não poderia parar por aí, ao ser cercado pela imprensa, um crítico do jornal The New York Times toma conhecimento de seus escritos, fica com o material e simplesmente encanta-se com a escrita de Chinaski. Quanto a Hemingway? Ele torna a aparecer em outros contos posteriormente.

Em termos gerais, é nítida a preferência de Buk pela narração em primeira pessoa ao se falar em contos e romances: no romance de 1971 intitulado “Cartas na Rua”, por exemplo, Chinaski conta suas “aventuras” em seu trabalho por anos nos Correios; em “Ao Sul de Lugar Nenhum”, apenas o primeiro conto tem a narração em terceira pessoa.

Talvez, justamente por gostar de se colocar na pele de suas criaturas, Bukowski optou por não fazer isto em “Solidão”. O texto conta a história de Edna, uma mulher que ao ver em um carro o anúncio “Procura-se mulher” para tornar-se esposa de Joe, vai até ele e não é recebida de maneira nem um pouco romântica (se fosse, teria-se certeza da não presença de Bukowski por trás de cada uma daquelas linhas).

Ler Bukowski é como ler sua própria história, uma espécie de auto-biografia torta. É preciso que se entenda primeiro sua vida, para daí sim, poder compreender sua obra, que nada tem nada de vulgar ou pornográfica.

AO SUL DE LUGAR NENHUM – HISTÓRIAS DA VIDA SUBTERRÂNEA
Charles Bukowski
[L&PM, 224 págs, R$ 19,90]

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