PSICODELIA VERDE
Líder do Supercordas se aventura em mais um trabalho solo e reafirma paixão pela lisergia

Por Túlio Brasil

Terreno de todas as coisas, o pensamento reserva os segredos do ponto de vista. Evasivo em ser impessoal, Bonifrate conclama seus devaneios mais precisos pelo rock psicodélico. Em tom calmo, uma voz nada sóbria discursa sobre constatações tão insanas que até vendem uma coerência. “Um par de pés sempre me levou pr’onde eu for, agora eu quero um artefato voador”, diz ele logo na primeira música (“Esse Trem Não Improvisa”) como um convite a ir além do problema real. Afinal, tudo está conectado.

Todas as músicas promovem uma continuidade, são atos e episódios sobre uma única viagem. Letras estruturadas a partir de um empirismo louco costumam abater por seus paradoxos. Porém, nesse álbum existe uma mistura semântica atenuante dos absurdos: a ordem das músicas e seus elementos criam micro-ciclos geradores de uma repetição mental. O compasso sempre engata numa marcha lenta que empurra o ouvinte carinhosamente para frente. Conforme as faixas passam, novos níveis são alcançados. São progressões de uma ideia que foge em ser ideia. Ordem em via concretizar em um elo maior entre a música e seu ouvinte.

Efeitos em conjunto com pequenas microfonias climatizam a lisergia. A viola concentra a sensatez, único som perfeitamente nítido e claro. Serve de pavimento o caminho para as proposições maravilhosas enunciadas por Bonifrate no vai e vem da voz. A repetição de riffs na guitarra, entradas de gaita e saxofone propiciam um clima de infinitude letal. Combinações ensaiadas durante o álbum inteiro, e que culminam na última faixa, “Eugênia” — dez minutos para a prova da lição ensinada. Experimentos como estes lembram a estética de alguns álbuns do coletivo americano Elephant Six. Deveras uma obra bem trabalhada no Lo-Fi (a maioria do álbum foi gravado na casa do protagonista) inspirador de um ritmo leve e nada urbano.

A fumaça tragada por Um Futuro Inteiro não é a dos carros e fábricas, é do verde. Mas nem por isso há um escapismo “fugere urban” do arcadistas. As imagens transmitidas pelas músicas buscam um contraste, uma possibilidade em recriar o olhar. Inclusive nos olhares poluídos. As onze canções são pequenos refúgios, fontes produtivas de uma energia desconhecida ao caos que florescem no olho do furacão. A citação do Largo das Neves (bairro de Santa Teresa, Rio de Janeiro) em “A farsa do Futuro Enquanto Agora” representa bem. O aprazível bairro a poucos quilômetros do estresse do Centro carioca. O questionamento não é a locomoção de um lugar a outro, e sim como a lógica vigente do sujeito o pode moldar.

Como carro-chefe do esquema, a sagacidade é celebrada. “Arranque pedaços meus, é quase certo que eu não vou morrer de poesia” (refrão de “Antena a Mirar o Coração de Júpiter”) marca um discurso raro e consagrador por si. Poucas frases soam tão genial em 2011. Em tempos de individualismo, tem-se aqui uma expressão da superação de uma unidade do sujeito. A repartição da criação (e, talvez, do ego) afirma a obra como um mérito plural. Ele não vai morrer da procriação de suas ideias por outrem; registra-se uma indução do tipo “consuma o criativo para que ele se torne parte de ti”. Fazer disso um mártir para o novo.

Um Futuro Inteiro tem sucesso nas inúmeras conexões dos seus raciocínios ébrios. Mesmo a vidência pregada não sendo de via lógica, as músicas indicam o álbum como integrante dos destaques desse ano. Em muitos pedaços para servir melhor.

BONIFRATE
Um Futuro Inteiro
[Independente, 2011]

NOTA: 8,5

 

 

* Túlio Brasil é editor do blog La Cumbuca.
Foto de Déborah Gusmão.

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