A IDENTIDADE DE UMA ÉPOCA
Livro que reúne entrevistas de músicos e artistas brasileiros, fecha com chave de ouro as compilações e registros de uma época banhada de baionetas,piquetes e muita criatividade

Por Fernando de Albuquerque

BONDINHO
Sérgio Cohn e Miguel Jost
[Azogue, 352 págs, R$ 79,90]

Foram apenas cinco meses, entre janeiro e maio de 1972, mas poucas foram as publicações impressas que consiguiram resumir em 13 edições os maiores figures da produção musical brasileira e se tornar uma das principais referências do jornalismo cultural feito, até hoje, no Brasil. Intitulada Bondinho, a revista surgiu enquanto um suplemento do Grupo Pão de Açúcar e logo evoluiu para o formato que agora encontra-se reunido em livro homonimo e publicado pela Azogue.

Em Bondinho estão reunidos 36 entrevistas históricas com gente do quilate de Gal Costa, Luiz Gonzaga, Hermeto Paschoal, o ator Walmor Chagas, o maestro tropicalista Rogério Duprat, Mauro Rasi, Milton Nascimento, José Celso Martinez, entre tantos outros nomes que merecem muito mais que o reconhecimento da indústria atual. E todos esses se artistas exibiram o melhor de si em todas as entrevistas.

Cansados dos cerceamentos da ditadura, eles abriram as portas de casa aos repórteres exibindo o máximo de sua intimidade como no trecho em que Maria Bethânia confessou ter namorado pouco, “Eu namorei muito pouco”, e emendou com: “Eu me apaixono, sabe? Eu não consigo namorar de brincadeira, só. Daí é um inferno, eu sofri… Teve um homem, sabe… sempre mais velho do que eu. Eu não gosto de gente da minha idade. Ele morreu, esse cara. Foi a grande paixão da minha vida. Morreu num desastre de automóvel. Era um homem enorme, todo bruto, sabe… tinha uma mãozona… Ele dizia que eu era ‘várias vezes gostosa’. Bom, meu signo é gêmeos, né? E gêmeos é meio… sacana.”

E todas as entrevistas tem esse tom confessional em que se fala de política, estética, angústias pessoais. Na entrevista de Walmor Chagas, que foi a única edição da revista com problemas com a censura da época. A entrevista de Chagasfoi guiada pela discussão de temas como o negro, a maconha e a violência da cidade. “Por que não se faz uma peça ou um filme sobre o rapaz terrorista que está preso e tem processo na Auditoria Militar?”. E a revista foi recolhida porque o ator falou de Édipo e do pleno desejo de dormir com a mãe.

O tom confessional arrebatou até mesmo gente como Chico Buarque, hoje com um perfil mais reservado, e que na entrevista falou em pensar em mudar de profissão, parar de gravar e das dificuldades de fazer um disco por ano se boa parte de suas letras voltavam da censura com o “x” de veto.

O preciosismo não esteve porém somente no conteúdo das entrevistas, mas sobretudo na subversão de textos e na forma de condução do entrevistado. A repercussão da Bondinho, que chegou a ter 500 mil exemplares circulando, deve-s sobretudo ao sucesso dela entre a classe artística. Não raro é possível ler um entrevistado referindo-se à fala de um colega que foi publicada na edição anterior.

A Bondinho é o registro máximo de uma época em que qualquer brecha é sinônimo para a verborragia desmedida. Vale aplausos também para o luxo da edição do livro que foi organizado por Miguel Jost e Sérgio Cohn.

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