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ESPETÁCULO DO TRASH
Bonde do Rolê vai além da excentricidade verde-amarela e mostram um Brasil universal e escrachado
por Paulo Floro

No rastro do sucesso surgiu um monte de mentes criticando a banda curitibana Bonde do Rolê, intitulando-a de vazia, sem mensagem ou referência. O que ocorreu com o grupo não é necessariamente uma reprise de quando artistas com lastro e talento foram idolatrados por iniciados e mentes bem-crescidas ao redor do mundo, Mutantes, tropicalistas, MPB bem feitinha. Não, quem curte o som do grupo são pessoas jovens, indies, um grupo que freqüenta festivais, clubes e compra semanários de música. Exatamente o público que não existe aqui no Brasil.

O Bonde do Rolê, mais inteligente (e sortudo) do que a grande maioria dos que ficaram criticando e reclamando do sucesso do grupo sentados em seus PC’s, dialogou com esse tal público “execrável”, e se divertiram bastante. Descobertos quase por acaso pelo DJ Diplo, em uma passagem pelo Brasil, o grupo queria ser uma banda de electro, mas acabaram misturando samplers improváveis de Alice in Chains com uma boa dose de Funk carioca. Com a parceria lançaram singles pelo selo Diplo Presents, mas agora parecem estar bem encaminhados. Afinal, assinaram contrato com a Domino Records, a gravadora de Franz Ferdinand e outros medalhões indies.

Depois de uma série de shows ainda sem disco lançado, por vários clubes americanos e Inglaterra, a banda finalmente conseguiu fazer parte do cast da maioria dos festivais de verão do hemisfério norte: Roskilde Festival, Glastonbury, Lovebox Festival, Eurockeenes, Latitude Festival, Popdeurope Berlin, Summersonic Festival em Tokyo, Oya Festival na Noruega, V Festival, Eletric Picnic em Dublin e o Bestival, na Ilha de Wight. Assim como seus colegas do Cansei de Ser Sexy (CSS), a vida do grupo está muito distante da realidade vivida pelos conterrâneos independentes. “Mas o Bonde não faz sucesso apenas entre o público indie?”, alguém pergunta. Ok. Se a lista acima de festivais não comprova o sucesso do grupo, podemos tomar como exemplo a banda Wry, desde cedo baseada na Inglaterra e com um ótimo disco lançado ano passado, não participou de nenhum evento do gênero restringindo-se ao puro rock de garagem.

O sucesso do Bonde reside no inusitado, no excêntrico. Uma banda brasileira de garotos brancos bem nascidos com um dose cavalar de porralouquice. Quase todas as críticas exageradas ao grupo são baseadas (geralmente) em dois pontos: preconceito contra o Funk e um mau humor sem muito sentido prático com a banda. Afinal, deveria ter um nome sofisticado e talentoso a fazer sucesso no mundo todo. De fato, dezenas de grupos da cena independente fazem um som que deveria ser reconhecido no circuito, mas fuck off, o Bonde teve visão.

With Lasers o primeiro disco de fato do Bonde do Rolê não conta com clássicos do grupo, como “Melô do Tabaco”, “Melô do Vitiligo” e “Máquina de Ricota”, talvez por conta dos samplers não autorizados. Afinal misturar AC/DC e Alice in Chains com letras sobre vagina, cu e outras graciosidades não deve ter sido bem quisto. A diferença das primeiras músicas do grupo para este debut tem a ver com sofisticação. Os primeiros singles eram brutos, quase toscos, e um tanto mais pesados. As novas músicas, com o mesmo teor pornográfico e escrachado, não decepciona os fãs, ao mesmo tempo em que são um ótimo cartão de visita pra quem leu muito, mas escutou pouco a banda.

bonde-do-role-with-lasers.jpg“O amor ainda existe até para quem o cu não lava” diz a banda em “Geremia”, uma das músicas inéditas. Basta dar uma olhada no MySpace dos integrantes. Num post recente em seu blog, Marina irritada com um gringo diz “seu grande idiota egocêntrico eunuco puritano filho duma puta mal comida. ODIO”. Escutar a música “baladinha” “Quero Te Amar”, é imaginar que a auto-ironia é a arma do grupo, coerente com os absurdos que cantam, com a vida que levam. “vc fez ferver a porra do meu sangue latino”, completa Marina em seu blog. É esta a chave do sucesso da banda: serem brasileiros e venderem uma imagem de esbórnia à mídia internacional. “NME é nóis” diria o Bonde.

BONDE DO ROLE
Bonde do Role With Lasers
[Domino, 2007]

NOTA: 8,0

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