NOIR POLÍTICO
por Raphaela Ordella

Assistir a Boa Noite, Boa Sorte (Good Night, Good Luck, 2005) é por em perspectiva a noção generalizada de que o americano não é irremediavelmente limitado. Ou pelo menos não costumava ser. Na década de 1950, em pleno macarthismo, alguns jornalistas da rede CBS ousaram denunciar o esquema de caça aos supostos comunistas na marinha americana.

O escândalo se deu num delicado momento político, simultâneo ao começo da televisão. Seu desenrolar contribuiu para vencer uma batalha pública, coisa que não só surpreende pela época mas pelo veículo que originou toda a polêmica.

Era o início desse revolucionário meio de comunicação e por conseqüência, de uma imprensa influente a ponto de interferir nas determinações de quem estava no poder.


George Clooney em mais uma incursão como diretor, conseguiu um excelente resultado ficcional com a relevância de um documentário (mas despojado do estilo “auto-paródia” de Michael Moore). Trata-se de um relato atípico na história dos EUA, em que a mídia serviu para quebrar paradigmas antigos que sustentavam as principais neuroses norte-americanas: ameaça comunistas, ameaça diplomática, ameaça de vulnerabilidade no seu perfeito “way of life”. Em tempos de George W. Bush (e a constatação de que pelo menos metade do país parece complacente a ele) qualquer referência à uma América mais honesta e iconoclasta é bem vinda.

O filme consegue retratar com fidelidade a atmosfera da época, quando ainda havia espaço para um jornalismo dirigido às massas mas autoral também. O romantismo das antigas redações desapareceu, mas obras assim nos lembram da responsabilidade e importância daquele que escolhe a profissão de informar.

Boa Noite, Boa Sorte
George Clooney
[EUA, 2005]

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