Black Kids (Foto: Divulgação)

Sangue novo
Por Paulo Floro

BLACK KIDS
Wizard Of Ahhhs EP
[Almost Gold Recordings, 2007]

Back Kids - Wizard of Ahhhs EPNeste final de século, um novo indie-rock começa a se cristalizar no imaginário da música pop. O Black Kids, de Jacksonville, Flórida (EUA) é um típico exemplo desse fenômeno. Mesmo não havendo mais um duelo de gerações tão acirrado como existia século passado, os admiradores e fãs de bandas como Black Kids não mais se importam com bandas antigas. Talking Heads e até mesmo o ainda famoso The Cure, que serviram de inspiração para o Black Kids são ignorados pelos jovens fãs da grupo.

Tanto é que, assim que surgiram, a imprensa logo os chamaram de “o novo Arcade Fire”, banda surgida em meados de 2003. A sonoridade pode até fazer eco aos canadenses, mas o Black Kids remete suas influências ao amargurado rock oitentista inglês. A começar pela vocal que em muito lembra Robert Smith cantando dramas adolescentes. O southern rock também se faz presente nas canções. Não à toa, a terra natal do quinteto é lar de um dos maiores nomes da música norte-americana, o Lynyrd Skynyrd.

Formados pelos irmãos Ali Youngblood (teclados e vocal) e Reggie Youngblood (guitarra e vocal), mais os amigos Owen Holmes (baixo), Kevin Snow (bateria) e Dawn Watley (teclado e vocal), o grupo já foi adotado pelo empresário do Arcade Fire (e também o mesmo da Bjork) e vem colecionando elogios da imprensa e da blogosfera. Os irmãos “sangue novos” são descendentes de filipinos e até isso ajudou a chamar atenção para a banda. Este primeiro EP, Wizard Of Ahhhs foi disponibilizado de graça no site oficial e ainda pode ser baixado.

Com apenas 4 músicas, o Black Kids conseguiu delimitar bem sua personalidade. E não é apenas na sonoridade e no vocal desafinado que a banda se inspira nos anos oitenta de Morrissey. Em “I’m Not Gonna Teach Your Boyfriend How To Dance With You” (o nome esdrúxulo também faz parte do conceito) retoma o tema do desajuste social e ambiguidade sexual, abandonado pela maioria das bandas que se apóiam num egocentrismo imponente. A letra “You are the girl that I’ve been dreaming of ever since I was a little girl” (Você é a garota que eu tenho sonhado desde que eu era uma garotinha) é cantado por uma voz masculina, cercada por um coro meio desesperado.

O Black Kids se mostra frágil, tímido e exemplifica isso nos vocais angustiados ou abafados. O deslocamento e a solidão também são temas que se traduzem na sonoridade do grupo. “Hurricane Jane” diz “It’s friday night and I ain’t got nobody” (é noite de sexta-feira e eu não tenho ninguém). Mais do que uma promessa, a banda tem força criativa suficiente para abrir uma bifurcação nova no novo rock nascido nesta década. Já com agenda cheia e turnês pelo mundo, terão tempo para conseguir experiência. O rock vai construindo seus novos ícones.

NOTA: 9,0

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