Platéia do CINE-PE (Foto: Divulgação)

O IMPÉRIO DOS SONHOS
Nosso repórter especial abandona as ruas quentes do Centro recifense para se aboletar no CINE-PE, com todo seu excesso de “frisson e atitude”
Por Biu da Silva, especial para a Revista O Grito!

Nas minhas caminhadas pelo Recife, além de usar os pés, claro, e os olhos, fico sempre com os ouvidos bem atentos para escutar histórias e descobrir acontecimentos e lugares curiosos para contar para vocês. Foi assim que fiquei sabendo que todo jovem descolado e culto, desde o dia 27 de abril, só tem na cabeça um assunto: o Cine-PE. Como ando meio cansado dessas coisas sórdidas de salas pornôs (por isso mesmo fui espantar as quinzumbas na Terça Negra), achei que era uma boa ocasião para ver filme sério e ouvir gente sabida e bem informada conversar sobre arte cinematográfica. Descolei uma carona e me larguei todo ansioso para o Centro de Convenções.

Chegando lá, confesso que fiquei impressionado. O estacionamento lotado, um entra e sai de gente, estrelas da televisão e uma profusão de meninas e meninos bem apessoados e bem vestidos (embora, neste item, tenha observado logo que também tem um povo malamanhado e muito garoto de bermuda e sandálias havaianas, mas tudo bem, o recheio, quase sempre, era bom) que davam um colorido especial ao local. Ultrapassada a gigantesca rampa e o imenso hall do Centro, cheguei numa espécie de praça da alimentação de estação rodoviária. Barracas vendiam tapioca, crepe, macaxeira com charque, pastel, coxinha, refrigerante e cerveja e mesinhas e cadeiras amarelas repletas de gente conversando e bebendo. Parecia a rua do Lazer da Universidade Católica de Pernambuco.

Um pouco mais adiante uma espécie de túnel e umas pessoas vestidas como funcionários de companhia de aviação recebiam os visitantes. Achei meio estranho, mas depois compreendi que aquilo fazia parte da estratégia publicitária do festival: a sala de cinema como simulacro de um avião, ou seja, ver um filme seria como empreender uma viagem aérea. É. Com um pouco de imaginação tudo é possível. Antes de entrar na aeronave, no entanto, resolvi tomar uma cervejinha e ouvir o papo cabeça dos cinéfilos recifenses. Naquele dia tinha uma coisa meio estranha. Num dos recantos da praça havia um telão. Eu pensei: deve ser para transmitir o que acontece lá dentro do avião para quem perdeu o voo. Depois descobri que não, mas volto a falar sobre isto daqui a pouco.

Pedi uma cerveja e logo vi que os preços cobrados eram bem altos. Nos bares improvisados na calçada, na entrada do Centro de Convenções, a cerveja de garrafa de 600 ml custava 3 reais, mas na tal praça uma latinha saia por R$ 2,50. Ok. Lá fora não tem que pagar taxa para os organizadores do evento e gente rica tem dinheiro para gastar. Fiquei, então, ali, sorvendo lentamente a minha cerveja, tentando aplacar o calorão abafado que fazia naquela noite e ouvir histórias. Ouvi uns gongos vindos lá de dentro, como acontecia nos cinemas antigos, e percebi que a cada toque uma excitação frenética tomava conta de alguns que engoliam apressadamente seus lanches e partiam para a sala de exibição. Notei ainda que, apesar do público numeroso, parece que todo mundo se conhecia.

No meio do burburinho, vi que tinha duas classes de gente: uma que faz e outra que assiste a filmes. Distinguir as duas categorias não era difícil. Os que fazem têm um certo quê de superioridade, dão risadas altas e falam de suas realizações como se fosse a obra definitiva do cinema brasileiro. Por vezes também falam mal dos filmes dos companheiros de ofício. Já os que só assistem, claro que mais numerosos, dividem-se em outras sub-classes. Tem os que não fazem filmes, mas logo, logo, afirmam que vão fazer; tem os que entendem tudo sobre enquadramentos, movimentos de câmera, fotografia; e tem os que, pelo jeito, não entendem nada de cinema e vão ao Cine-PE para paquerar ou porque ouviram dizer que ir ao festival é uma questão de atitude.

Naquela quarta-feira muitos assuntos estavam na boca do povo: “Você gostou do filme de Costa-Gavras?” “E Muro, o que é que tu achou? Eu não entendi nada.” “E Eiffel, será que merecia meia página do Caderno C? Ele é amiguinho de Kleber. Aaahh…” . “Mystérios é uma bomba, pense num filme ruim”.  “E aquele filme feito com celular, o que era aquilo?”. “Eu gostei de Menino Aranha, a ruptura com a estrutura clássica da narrativa de documentário é muito bem sacada…”. “Meu filme vai rolar amanhã, você tem que vir assistir!”. “Olha aquele bofe ali, é tuudo, dizem que tem uma …”. “Eu só vou ver os curtas, porque quero ver o jogo do Sport”. Bom, caríssimo leitor, eu confesso que estava meio voando mesmo antes de entrar no avião, mas você com certeza é um jovem culto e descolado e deve estar decifrando com clareza o significado dessas afirmações aleatórias captadas pelo meu atento ouvido.

Terminei então a cerveja e diante de tantos comentários e frissons, vi que se ficasse ali fora talvez estivesse perdendo coisas muito interessantes dentro do Teatro Guararapes. Peguei meu ingresso, atravessei o portão de embarque e entrei no avião do festival. A sala não estava lotada – depois me disseram que era por causa dos jogos do Sport e do Náutico – e muita gente estava preferindo ver Sport x LDU no telão lá fora do que o filme no telão lá dentro. Achei muito esquisito. Ué, mas as pessoas não vêm aqui para ver filmes? Notei também que os muitos que identifiquei como realizadores preferiram ficar lá fora enchendo a cara do que vendo filmes. Também achei esquisito. Os que ficaram na sala falavam dos curtas metragens que tinham acabado de assistir e pelo que pude constatar parece que a seleção da noite não tinha sido das melhores.

Instalei-me numa das poltronas, muito desconfortáveis, por sinal, e fiquei aguardando o reinício da sessão.  A apresentadora da TV Jornal Graça Araújo, com seus rrr puxados e voz estridente, anunciou os filmes. O primeiro era um documentário sobre o compositor Paulo Vanzolini e o segundo era uma ficção de um cineasta pernambucano, um médico chamado Wilson Freire. Os realizadores e as equipes subiram ao palco, falaram um pouco de seus filmes, fizeram agradecimentos, Graça sumiu e a projeção começou. O documentário foi bacana, quem gosta de música deve ter ficado satisfeito. Mas o outro filme. Geente. O que era aquilo? Pelo visto não era apenas eu, que não sou descolado nem culto, que não estava curtindo o dito cujo. Pouco a pouco, as pessoas foram saindo, saindo e quando cheguei no meu limite resolvi acompanhá-los. Deve ser fácil conseguir dinheiro para fazer filme, porque devem ter dado uma nota preta para o moço fazer aquela porcaria.

Lá fora, para minha surpresa, uma animação. Torcedores do Sport enchiam a cara e gritavam e urravam e se abraçavam e entoavam cazá cazá cazá. Como não sou fanático por futebol e não queria correr o risco de perder o bacurau, fui embora. No caminho de casa fiquei me perguntando se valeria a pena voltar outro dia ao Centro de Convenções. No percurso vi os botecos cheios de gente bebendo e jogando conversa fora e pensei naquele pessoal que ficou lá no Cine-PE, no mundo à parte em que eles estão inseridos, uma espécie de império dos sonhos. Mas, nos jornais, na televisão, todo mundo diz que o festival é muito importante para a cultura pernambucana. Então já que é assim, deixa ser. Na próxima semana eu vou voltar a andar pela Boa Vista.

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