Beth Gibbons (Foto: Divulgação)

UMA DIVA DE LUTO
Mesmo sem uma carreira meteórica Beth Gibbons é, hoje, uma das mais importantes cantoras dos últimos tempos
Por Fernando de Albuquerque

Bristol, na Inglatera, é a terra natal de Beth Gibbons, a mulher alta, loira e que geralmente traja preto ou mesmo alguma camiseta monocromática. Ela já vagueou por meio mundo angariando fãs e alcançou a completa fama com o Portishead. O culto em torno de sua personalidade beira a histeria já que Gibbons apresenta uma das vozes mais encantadoras/atordoantes dos últimos tempos.

A unanimidade em torno de seu talento, por exemplo, bem que poderia se tornar sua própria perdição perante a crítica e o mundo. Mas a fama nunca lhe subiu a cabeça. Pelo contrário, a cada trabalho são diferentes tons sonoros, muitas experiências que lhe dão, a cada dia, mais credibilidade enquanto artista.

No começo da carreira ela trabalhava em uma banda de covers e fazia apresentações um tanto duvidosas em pubs de sua cidade natal. Foi lá que conheceu Geof Barrow, em uma agência de empregos. Os dois logo se deram bem ao compartilhar dos mesmos ideais musicais. E não demoraram muito a compor sua primeira música juntos, e pouco depois se uniram a Adrian Utley, um guitarrista de Jazz.

Mas o que mais impressiona em Gibbons não é sua trajetória profissional, mas sim os efeitos de seus vocais. Qualquer letra que entoe ganha cores melancólicas com sua voz dotada de amplos recursos fônicos. Ora se apresenta excessivamente forte, ora repleta de uma suavidade sem tamanho. Se assemelha às grandes musas jazzísticas já que ela sempre se arrisca em timbres que lembram mulheres como Billie Hollyday e Nina Simone. Trazendo à memória imagens que fogem à habitual chuva que é tão própria do imaginário inglês melancólico.

E um dos sons que mais representa isso é quando ela repete alegremente “that ain’t me” em “Spyder Monkey”. Parece que o ouvinte está na mesma terra do Morro dos Ventos Uivantes tendo por fundo musical guitarras góticas e ela sussura: “time is but a memory”. A solidão é imensa e inevitável. Masoquista, a voz de Gibbons tem o dom de fazer várias modulações: suave, se converte em medrosa e na seqüência pode se tornar ameaçadora e claustrofóbica.

Beth Gibbons (Foto: Divulgação)
Gibbons: recursos fônicos a serviço da dor e da tristeza

A afirmação de sua condição de “diva triste” se firmou não com o Portishead, mas quando ela se juntou a Paul Webb e gravou Out of Season ainda em 2002 e mesmo no trabalho em Lonely Carousel, disco do português Rodrigo Leão. Isso sem contar nas pontas em filmes. Um exemplo é sua gravação com “Glory Box”, sob o fundo de uma filarmônica, para O Senhor das Armas, estrelado por Nicolas Cage.

E se formos pensar nos últimos onze anos, onde você estava em 1997 quando Beth entoou os gogós num dos últimos trabalhos do Portishead? Se estiver na casa dos vinte, você estava no colegial, brincando de ficar bêbados com amigos. Foi lá que Gibbons transformou dor em arte. Mudou a linha do tempo dos ouvintes. Deu tons dourados àquilo que era pura inglória.

Palmas silenciosas!

[+] – CRÍTICA DE THIRD, NOVO DISCO DO PORTISHEAD

GIBBONS EM VÍDEOS

Com Rusty Man no programa de Jools Holland, em 2002

Ao vivo em Glastonbury, em 1998, com o Portishead

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