BEIJO NO ASFALTO
Arnaldo Branco (texto) e Gabriel Goés (arte)
[Nova Fronteira, 72 págs, R$19,9]

O mercado de quadrinhos vive uma febre de adaptações literárias, A Relíquia, de Marcatti,  O Alienista, de Fábio Moon , e outros menos cotados, mas que abarrotam as livrarias. O real interesse por esta leitura não tem a ver com um aumento de público de quadrinhos no Brasil. O objetivo é mais temeroso do que pode parecer.

Ao mesmo tempo em que desejam estar inseridas no boom de livros de HQ’s nas livrarias, as editoras não ousam se arriscar em projetos autorais de novos nomes.

Beijo no Asfalto é um lançamento da Nova Fronteira, editora que publica as obras de Nelson Rodrigues. A adaptação ficou por conta do quadrinhista e jornalista Arnaldo Branco (Capitão Presença) e a arte por Gabriel Goés, fanzineiro e ilustrador. Branco conseguiu deixar o texto com o ritmo angustiante da peça original.

A tensão sempre presente, prende atenção ao texto, o único detalhe que causa certo incômodo é a tentativa de trazer aos balões a experiência estilística rodrigueana. Por vezes, a leitura fica truncada com as frases incompletas e o uso incomum de pontuação. Mas foi um experimento que merece crédito pela tentativa.

A arte de Goés tem uma idéia criativa, apostando nos traços retos, semelhantes a xilogravura. A simplicidade acentua a aflição dos personagens. A exagerada unidade por vezes, deixou a leitura cansativa.

A história do homem pressionado pela família, amigos e imprensa, após beijar um homem atropelado em frente a uma multidão foi um dos grandes sucessos de Nelson Rodrigues, que colocou no texto todas suas características marcantes. Interessante seria ler HQ’s apostando no estilo Nelson Rodrigues ou outros escritores. O quadrinho nacional tem muito a ganhar se buscar repertório e influência na literatura e não apenas desenvolver adaptações. Ao menos sabemos que bons atistas temos à disposição. [Paulo Floro]

NOTA: 6,5

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