Polêmica pintura do americano Mark Chamberlain, exposta no Kathleen Cullen Fine Art de Nova York anos atrás

QUEREMOS ROBIN
Filmes de Batman ignoram a existência do menino-prodígio, tudo para devolver ao bravo morcego a heterossexualidade ameaçada
Por Alexandre Figueirôa, colunista d’ O Grito!

Desde criança, no tempo em que revista de história em quadrinhos ainda chamava-se gibi, eu já achava meio curioso, aquela dupla de heróis, formada por Batman e Robin. Apesar da minha relativa ingenuidade, sempre ficava me perguntando, enquanto folheava os gibis, o que unia, por anos a fio, um solteirão bilionário a um garoto. Buscava, então, nas entrelinhas das histórias, uma justificativa que explicasse porque Bruce Wayne, em vez de gastar sua grana com mulheres, preferir passar a vida correndo atrás de malfeitores, tendo como companheiro o seu fiel pupilo Dick Grayson.

As explicações para tal relação, à medida que mergulhávamos no mundo do homem-morcego esclareciam, mas sempre deixavam a mosca atrás da orelha. A mais conhecida era o fato de Wayne ter tido os pais assassinados e isto o teria levado a se tornar um combatente do crime. Mais tarde, ao se deparar com o jovem acrobata, vítima também da mesma violência, num ímpeto de piedade, não hesitara em adotar o órfão que viria a ser o seu companheiro de luta contra o Coringa, o Charada, o Pingüim, a Mulher-Gato…

Bom, os anos passaram e o herói do bat-móvel e da bat-caverna saltou de novo das páginas impressas para as telas. Na versão pop dos anos 60, repleta de animações onomatopéicas (ZIG, POW, PLAFT), a suspeita de que aquela relação entre um homem mais velho e um jovem escondia algo, voltou à minha mente com mais força. Wayne, embora continuasse sendo representado como um playboy irresponsável de Gotham City, não desgrudava do garoto. Lembro que, na época, as insinuações de que a dupla dinâmica, nas horas vagas, praticava outras peripécias passou a ser comentada pelo mundo afora.

Nos quadrinhos, fizeram de tudo para devolver ao bravo morcego a heterossexualidade ameaçada. Os autores das HQ’s casaram Wayne, mataram Robin, e Batman se transformou no cavaleiro das trevas, um herói soturno e esquisito e, claro, sem a alegre companhia do menino-prodígio. Quando voltou a ser retratado no cinema já no final dos anos 80, a versão de Batman, dirigida por Tim Burton, e estrelada pelo insosso Michael Keaton, simplesmente, ignorou a existência de Robin. Alguns fãs da dupla, como eu, sentiram-se ultrajados e lembro-me de uma sessão de estréia em São Paulo, quando um desses fãs, irritados com a eliminação do menino-prodígio da trama, foi ao cine Bristol, na avenida Paulista, fantasiado de Robin. Os seguranças da sala quiseram retirá-lo, mas a platéia, em urros, impediu o ato arbitrário e o anônimo clone foi deixado em paz sob aplausos de consagração.

Robin continuava no coração e mente dos fãs. Curiosamente, em 1995, o cineasta Joel Schumacher ressuscitou Robin e novamente voltou a se falar que Bruce Wayne (agora vivido por Val Kilmer) era gay. Bem, a versão de Schumacher era realmente um tanto quanto espalhafatosa, e a presença do gracioso Chris O’Donnell como Robin, fazia jus aos novos boatos que circularam de que naquele angu tinha caroço.

Agora, em pleno século 21, depois que troquei os gibis por Freud, já não tenho mais dúvidas. Depois de tantos anos, tantas versões, tantos Bruces e tantos Dicks, não dá para acreditar que Batman e Robin sejam seres assexuados e castos, cuja única atribuição é correr atrás de malvados bandidos pelas ruas de Gothan a cada chamado do comissário Gordon. A nova onda de Batmans, cujo exemplar mais recente é o filme dirigido por Christopher Nolan, estrelado por Christian Bale, e tendo Heath Ledger no papel do Coringa, ignora outra vez que um dia já existiu o menino prodígio.

Todavia, no imaginário de muitos admiradores do homem-morcego, a figura de Robin continua pairando na penumbra e podem acreditar, Batman sem Robin, é como xícara sem pires. Segundo a Wikipédia, por conta do trauma de infância, Bruce Wayne não se envolve emocionalmente com ninguém. Então, por que não trazer seu pupilo de volta? Perdoem-me os machistas e preconceituosos, mas o nosso herói, além de contar com um valoroso auxiliar para combater os vilões, teria momentos bem mais agradáveis naquela mansão sombria habitada apenas pelo mordomo Alfred e os morcegos da bat-caverna.

Acho que está na hora de exigirmos Robin de volta. Batman, chega de ficar remoendo os traumas do passado! O mundo mudou. Se não deu certo com a Mulher-Gato, saia do bat-armário e seja feliz, se não o Coringa vai terminar ganhando a batalha.

Sem mais artigos