NÃO DÁ, NÃO DESCE, IMPOSSÍVEL DE DEGLUTIR
Filme que procura retratar parte da vida de Goya se perde na própria narratividade transformando o personagem título em figura secundária e desimportante
Por Fernando de Albuquerque

Com direção de Milos Forman e Jean-Claude Carrière, As Sombras de Goya, deveria, no mínimo trocar de nome. O pintor é uma das personagens mais instigantes e mesmo intrigantes da história mundial e isso já rendeu e continuará rendendo uma série de filmes e nessa trama em específico é um dos personagens menos importantes, com pouca importância no enredo, que por sua vez se configura como um dos novelões mais mal produzidos nos últimos tempos. O que salva é a interpretação impressionante de Javier Bardem e Natalie Portman. Ai, ai Barden!

A façanha dos diretores de transformar o personagem título-em alguém cujo papel é mais ridículo que o do vice-presidente brasileiro, é bem difícil de explicar e somente os próprios para realizar algum tipo de comentário a respeito. Uma inquisição espanhola bem esquisita e mal representada, ao lado da história do corrupto padre Lorenzo tomam conta da tela de uma forma que se a figura de Goya fosse simplesmente excluída não faria a menor falta. A própria representação dos tempos sombrios na corte d’espanha ganham contornos muito tênues se comparados ao que realmente aconteceu. Rolou sangue, muito sangue. E Sombras de Goya relega as torturas da igreja católica a meros gritinhos de horror e cenas mal formatadas de sexo entre Barden e Portman. Sadicamente, a platéia até torce por uma performance mais audaciosa do homem que levou a estatueta.

Mas, críticas à parte, vamos à protocolar sinopse. Goya, aqui interpretado pelo sueco Stellan Skarsgard (de Piratas do Caribe), aparece no filme como um angustiado observador da desgraça alheia. Queridinho do rei e de uma rainha enrugada ele consegue escapar de ser vítima direta dos inquisidoes. Mas nesse interlúdio entre a pintura e a própria realidade o bunito não consegue impedir os abusos desse período contra alguns amigos. No final todo mundo leva um tremendo cacete de Napoleão que, depois, é escorraçado da península Ibérica.

É um roteiro repleto de coincidências mal explicadas, personagens pouco aprofundados e um toque tão grande de ficção que soa fake qualquer passagem que tateie uma experiência mais biográfica dentro da vida do pintor. O mais forçado de tudo é uma possível correlação entre a invasão napoleônica e a invasão ao Iraque. Além de tirar a atenção do espectador para um assunto totalmente nada haver (o boom do momento é a menina Isabela), a intertextualidade é incoerente já que a invasão inglesa à Espanha é vista com louvor e glória. Sem falar que a comparação não procede por uma simples questão de anacronismo.

Além disso, a própria utilização dos quadros de Goya incomodam. Eles são utilizados para ilustrar as cenas da invasão francesa e a seqüência é completamente mal conduzida, mal escolhida e gera apenas uma sensação “ai, preciso me recostar mais à cadeira”.

O filme diferente do formato clássico se divide apenas em duas partes. A primeira de trevas e a segunda de luz. Tal como antes e depois da revolução francesa. Mas na contramão dos que aplaudem a queda da bastilha a primeira metade merece palmas discretas e pouco sonoras no fundo da sala, enquanto a segunda metade tem direito, apenas, a uma sala vazia com luz branca acesa. O que salva é a presença constante de Barden. Por mais que o trabalho de maquiagem surpreenda é difícil reconhecer a capacidade dela em compor uma personagem que de tão enfraquecida quase não dá pro espectador ter pena. A conformação é total.

O resultado de tantos nomes caros na cartela de atores acabou por subutilizar as ótimas qualidades do elenco. Uma pena. Afinal, Barden é que ficou chamuscado.

AS SOMBRAS DE GOYA
Milos Forman
[Goya’s Ghosts, Espanha, 2007]

NOTA: 3,0

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