Guerra/ Jonathan Littell

DELEITE E HORROR
Com um narrador ex-oficial e bissexual, o escritor Jonathan Littel desvenda as origens apocalípticas do Mal
Por Rêmulo Caminha

Depois de arrebatar o principal prêmio literário francês, o Goncourt, o primeiro livro de Jonathan Littell chega ao Brasil, pela Editora Objetiva. Na capa do calhamaço, cuja narrativa ultrapassa 900 páginas, vem estampado o título: As Benevolentes, uma referência à tragédia grega de Ésquilo.

Filho do ex-jornalista e escritor de thrillers, Robert Littell, Jonathan nasceu nos Estados Unidos, ganhou cidadania francesa e, agora, vive em Barcelona. Estudou em Yale, viu de perto os dramas da Bósnia, Tchetchênia e Congo, regiões tomadas por guerras civis. Em 2001, abandonou o ativismo humanitário, dedicando-se exclusivamente à pesquisa que resultou em Les Bienveillantes.

Lançado em Paris no final de 2006, a obra já vendeu mais de 250 000 exemplares. Foi comparado a Dostoiévski e Tolstoi pelo jornal francês Le Monde, sendo também aclamado na última Feira do Livro de Frankfurt. Desbancou Alan Fleisher (L’Amant em culottes courtes, Seuil), Michel Schneider (Marilyn, dernières séances, Grasset ) e François Vallejo ( Ouest, Viviane Hanny) na última disputa da Academia Francesa.

Apesar da origem ianque, o ex-ativista deu à narrativa o idioma francês, justificando-se por ter os franceses Gustave Flaubert e Standhal como heróis literários. Como o americano Philip Roth, Jonathan esmiuça os meandros do realismo histórico, emprestando seu ponto de vista, a partir das experiências na Bósnia, ao enredo. Entretanto, sem distorcer o referencial pragmático dos fatos, transforma num romance os relatos de um oficial do exército nazista.

Jonathan Littell
Jonathan Littell: Um americano que escreve em francês e vive em Barcelona, passou de ativista humanitário para o vencedor do maior prêmio da literatura francesa

Jonathan Littell (As Benevolentes) Jonathan dá voz ao Rottenführer do Exército nazista, Maximillian Aue, deixando-o relatar atrocidades nos fronts de Stalingrado, passando por Berlim até a Lituânia. No livro, surgem personagens reais como Adolf Hitler, Albert Speer e Rudolf Hess. A narrativa também chega ao gabinete de Heinrich Himmler, um dos responsáveis pela “solução final”, cujo objetivo era eliminar os judeus da Terra.

Com muita naturalidade, o protagonista-narrador compõe diálogos inteligentes. Inclusive, não são poucos, tornando-se verdadeiras elocubrações. O objetivo de Jonathan é, sem dúvidas, perseguir a origem do mal, descontando na humanidade a responsabilidade pelo extermínio de milhões de judeus. Nesse sentido, aparecem as contribuições da Ucrânia à política nazista e de outros países. Fixando o enredo, o escritor também explicita a hipocrisia nazista quando propõe um narrador bissexual e ex-oficial das SS nazistas.

AS BENEVOLENTES
Jonathan Littell
[Objetiva, 912 págs, R$ 65]

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