Jorge Luis Borges (Foto: Diane Arbus

UMA RECEPÇÃO DE BORGES NO BRASIL
Por Lucila Nogueira*, especial para O Grito!

Era um Recife ensolarado aquele em que nos encontrávamos em uma livraria da rua da Imperatriz nas manhãs de sábado. Era um andar pelas ruas como quem estava em casa e as estantes de livros o labirinto escolhido para descobrir esse espelho que nos devolve a face. Era o final dos anos sessenta e a juventude descobria autores que se tornavam companhias e assunto obrigatório nas conversas fora da sala de aula. Poderia dizer que um deles era Herman Hesse, com seus famosos Sidharta, Demian, O Lobo da Estepe, e os demais que colecionávamos avidamente, enquanto suas idéias iam formando parte da nossa visão do mundo. Havia também uma procura pelos livros de Camus: O Estrangeiro, O Homem Revoltado, O Mito de Sísifo, estes de um viés mais existencialista, em que não se esquecia jamais a atmosfera de absurdo.

Eu me lembro, Amarcord, eu me lembro, quando pela primeira vez li um livro de Borges publicado no Brasil. O nome era Elogio da Sombra e Perfis, a que se sucedeu Nova Antologia Pessoal, este último editado em 1969 pela conhecida Editora Sabiá do Rio de Janeiro, com tradução da filha de Drummond, Maria Julieta Graña e de Marly de Oliveira. Até hoje quando toco nos livros mergulho novamente naquela estranha atmosfera que passou a me acompanhar durante um longo período. Eram anos de ferro. Tanques cercavam a Faculdade de Direito do Recife, como a mostrar uma possível inutilidade daqueles cinco anos do curso de direito a que me dedicava, atropelada que fora a Constituição por um Ato Institucional a repercutir demasiado na sociedade brasileira. Do ponto de vista pessoal a primeira desilusão amorosa já me ensinara a precariedade das relações humanas e a incerteza dos afetos em meio ao vazio e à tristeza dos desencontros possíveis. Aprendi que o amor era um jogo, que a lei precisava da força e esse mundo que surgia, de tão desagradável, haveria de levar-me ao refugio da poesia.

EL SUR

Desde uno de tus patios haber mirado
las antiguas estrellas,
desde el banco de sombra haber mirado
esas luces dispersas
que mi ignorancia no ha aprendido a nombrar
ni a ordenar en constelaciones,
haber sentido el círculo del agua
en el secreto aljibe,
el olor del jazmín y la madreselva,
el silencio del pájaro dormido,
el arco del zaguán, la humedad
— esas cosas, acaso, son el poema.

Seus poemas provavam que a salvação pela estética era universal e historicamente possível. Nessa época, eu escrevia poesia eventualmente, passada a adolescência e toda a sua euforia. Havia um deserto em torno do rio Capibaribe por onde eu caminhava dentro da minha burka, da minha redoma de vidro. Um deserto sem sombra que avermelhava a minha pele e dilatava as minhas pupilas. Sou estrangeira, pensava assim como Camus, sou inadaptável a este calor a esse caráter de insegurança com que caminhava na superfície.

Mas de repente, o que me acontecia o insight, uma revelação, uma epifanía. O autor argentino me envolvia e me levava para um outro plano, em que as imagens eram soberanas e nada me ameaçava, em minha visão do mundo cristalino. Era uma poesia que falava de sonhos e que relia os livros, era um mundo intacto da banalidade cotidiana e ler Jorge Luis Borges me fazia sentir segura de que a minha vida não era um equívoco.

ARTE POÉTICA

Mirar el río hecho de tiempo y agua
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
en una música, un rumor y un símbolo,

ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre. La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
Y es otro, como el río interminable.

Também eu vivia dentro de um labirinto, também eu atravessava o horizonte de olhos aflitos, excessiva visão encadeada, vontade visionária de desrespeitar pesos e medidas, criando por um método extraordinário a mais presente de todas as companhias. Havia tanto nessa ficção como nessa poesia algo que no mundo adulto habitualmente exige que todos renunciem: o encantamento, o sonho, a magia. Naquela época eu respeitava desmesuradamente a página impressa, e não anotava nada em suas margens; em proporção contrária, prisioneira de Borges, eu o lia e relia, amarelando as páginas com tom cor de fogo da cidade do Recife.

Marcada pelo hibridismo produto de uma educação portuguesa/carioca/nordestina, identificava-me com Jorge Luis Borges em sua busca de identidade, em seu desconhecimento de si mesmo, em sua ânsia de adaptar-se à cultura da sua terra de nascimento, descendente direto que era de europeus, de um lado, ingleses e, de outro portugueses.

LOS BORGES

Nada o muy poco sé de mis mayores
Portugueses, los Borges: vaga gente
Que prosigue en mi carne, oscuramente,
Sus hábitos, rigores y temores.
Tenues como se nunca hubieran sido
Y ajenos a los trámites del arte,
Indescifrablemente forman parte
Del tiempo, de la tierra y del olvido.
Mejor así. Cumplida la faena,
Son Portugal, son la famosa gente
Que forzó las murallas del Oriente
Y se dio al mar y al otro mar de arena.
Son el rey que en el místico desierto
Se perdió y el que jura que no ha muerto.

A ascendência portuguesa marca a poesia de Borges com uma nostalgia inconsciente característica da noção de fado, de destino. As vezes que esteve no Brasil, fez questão de referir-se a essa condição de portador de sangue lusitano, como por exemplo em entrevista a Renato Modernell, para a revista Status, em agosto de 1934, convidado que fora a vir ao Brasil por Jorge Schwartz.

Meus dois sobrenomes são portugueses, Borges e Acevedo. Acevedo creio que é judeu-português, assim me disseram. Borges, não. É um sobrenome muito comum em Lisboa. Meu bisavô era um capitão português que se chamava Borges de Moncorvo, que é um pequeno povoado de Trás-os-Montes, perto da fronteira com a Espanha, e creio que este ano vou ser convidado para visitar esse lugar que foi dos meus tataravôs. Estive cerca de um mês em Lisboa, onde me tornei amigo de um escritor chamado João António Ferro. Eu falava em castelhano e ele me respondia em português. Muito lentamente, nos entendíamos. Afinal, os dois idiomas são tão parecidos, nem sei se valeria a pena estudar o outro.

Borges, a julgar por sua bibliografia em periódicos, haveria de estar presente em Portugal com sua obra e Joaquim Montezuma de Carvalho chegaria a destacar a relação de seu conto Aleph com o canto décimo de Os Lusíadas.

A LUIS DE CAMOENS

Sin lástima y sin ira el tiempo mella
Las heroicas espadas. Pobre y triste
A tu patria nostálgica volviste,
Oh capitán, para morir en ella
Y con ella. En el mágico desierto
La flor de Portugal se había perdido
Y el áspero español, antes vencido,
Amenazaba su costado abierto.
Quiero saber si aquende la ribera
Última comprendiste humildemente
Que todo lo perdido, el Occidente
Y el Oriente, el acero y la bandera,
Perduraría (ajeno a toda humana
Mutación en tu Envida lusitana.

Compreendi, então, que a literatura era um sonho, embora um sonho dirigido. Era um código especial em que pessoas de várias culturas rapidamente se reconheciam. Percebi que não havia tanta distância entre a ficção e a voz lírica, que o segredo era a maior qualidade, guardado na metáfora transparente e concisa. Compreendi que éramos todos forasteiros, prisioneiros da imaginação e da memória, caminhando pelas ruas ignorantes dos mandados do destino. Peças de um tabuleiro adiando a morte como no filme de Bergman, O Sétimo Selo, banhando-se no rio de Heráclito, sem perceber a mudança da água no caminho infinito.

Não era todo mundo que compactuava da minha preferência pelo autor argentino. Quando fui a Buenos Aires pela primeira vez, em 1976, o seu rosto estava em todas as bancas de revista, em uma bela edição de sua obra reunida. Impressionante esse poder da literatura de nos levar a fazer conexões que se tornam inesquecíveis em nossas vidas.

BUENOS AIRES

Y la ciudad, ahora, es como un plano
De mis humillaciones y fracasos;
Desde esa puerta he visto los ocasos
Y ante ese mármol he aguardado en vano.
Aquí el incierto ayer y el hoy distinto
Me han deparado los comunes casos
De toda suerte humana; aquí mis pasos
Urden su incalculable laberinto
Aquí la tarde cenicienta espera
El fruto que le debe la mañana;
Aquí mi sombra en la no menos vana
Sombra final se perderá, ligera.
No nos une el amor sino el espanto;
Será por eso que la quiero tanto.

Era um ídolo em Buenos Aires aquele que, com relação ao Nobel, sempre fora preterido, embora houvesse de ganhar vários prêmios ao longo de sua vida. Através de Borges tudo adquiria um novo colorido, um mistério passava a ser próximo e possível. Podia caminhar, à maneira de Pixote, vivendo minha própria alegoria, sustentando contra o sol meu espelho de enigmas. Havia lugar para o fantástico, o conhecimento onírico, havia uma luz no fim do túnel, havia um norte magnético, um quadrante, uma bússola repentina.

Nunca mais fui a mesma. Voltei ao Brasil com duas malas de livros. Sim, porque a partir de Borges fui descobrindo outros autores latino-americanos que me falavam uma linguagem mais consentânea com o meu padrão de sensibilidade lírica. Algo menos prosaico e menos prolixo, com densidade imagética e metafísica. Mais do que oralidade, um jardim secreto, em uma casa estranha, a estrutura de parábola já encontrada em Kafka, que Borges, por sinal, traduzira; um escândalo com gosto de assombro a conjugar visível com o invisível, um gosto de fábula de derivação romântica, desde Roffmann a Hawthorne. Vidas de imaginação, caminhando no fio do fantástico, literatura de sonho mais capaz de inventar do que de observar, de transgredir do que de repetir, herdeiro de um certo esteticismo simbolista ao modo de Oscar Wilde e do mundo de espanto de William Blake, além das formas de horror de Poe e Baudelaire.

LABERINTO

No habrá nunca una puerta. Estás adentro
y el alcázar abarca el universo
y no tiene ni anverso ni reverso
ni externo muro ni secreto centro.
No esperes que el rigor de tu camino
que tercamente se bifurca en otro,
que tercamente se bifurca en otro,
tendrá fin. Es de hierro tu destino
como tu juez. No aguardes la embestida
del toro que es un hombre y cuya extraña
forma plural da horror a la maraña
de interminable piedra entretejida.
No existe. Nada esperes. Ni siquiera
en el negro crepúsculo la fiera.

O poeta como alguém que vê o desconhecido como num espelho de enigmas mas que logo o verá frente a frente, como nas palavras de São Paulo: agora conheço apenas em parte mas então conhecerei como sou conhecido. Jorge Luis Borges consegue chamar a atenção do leitor e dar-lhe consciência de que as coisas podem ser o avesso delas mesmo, que nós as vemos ao contrário, e nesse ponto ele é fiel à vanguarda ultraista por onde começou e mantém-se no terreno do gênero alegórico, desprezando as evidências repetitivas de um certo ramo experimentalista de seu tempo.

A metafísica presente no texto de Borges reveste-se de uma dignidade existencial, o intertextualismo que nela encontramos fortalece o argumento de que todos os livros podem ser apenas um mesmo livro e que além do acaso e da morte o passado guarda o futuro entre pátios e jardins.

EVERNESS

Sólo una cosa no hay. Es el olvido.
Dios, que salva el metal, salva la escoria
y cifra en Su profética memoria
las lunas que serán y las que han sido.

Ya todo está. Los miles de reflejos
que entre los dos crepúsculos del día
tu rostro fue dejando en los espejos
y los que irá dejando todavía.

Y todo es una parte del diverso
Cristal de esa memoria, el universo;
no tienen fin sus arduos corredores

y las puertas se cierran a tu paso;
sólo del otro lado del ocaso
verás los Arquetipos y Esplendores.

No que concerne ao nosso país, desde o inicio de sua atividade literária fora celebrado por Mário de Andrade, Murilo Mendes, Otto Maria Carpeaux, Alexandre Eulálio, Fausto Cunha, Augusto Meyer, Paulo Ronai, Guilhermino César, Lya Luft, para mencionar apenas os primeiros a que se seguiu toda uma fortuna crítica recentemente mencionada em livro por Jorge Schwartz, que conseguiu reunir esses primeiros textos originais que atestam a boa recepção que teve o autor argentino no Brasil.

A sua poesia se constitui desde o surgimento no Brasil em uma resistência ao império quer do racionalismo, quer do realismo, que têm direcionado algum segmento de nossa produção literária, reatando a arte poética ao clima encantatório e mágico de seu início, demonstrando como se ficcionaliza o discurso ensaístico contemporâneo, transitando entre o conto e a crítica e incluindo em seus livros poemas líricos, o que leva à realização de uma fusão de gêneros na qual existe uma noção de autobiografia ligada, ainda que de modo dissimulado, à busca do auto-conhecimento. Sua estratégia narrativa, a exemplo de Cervantes possibilita a figuração do maravilhoso, do sobrenatural sem quebrar a realidade, que se submete a essa arte de talismã e sortilégio, e que é precursora da atual literatura chamada pós-moderna.

Como lembra Ricardo Piglia a arte de narrar consiste em pressentir o inesperado; cenas ficcionais retornam à mente do leitor como lembranças pessoais; a estrutura onírica e caleidoscópica de Borges nos projeta na revelação de um segredo cuja arte narrativa consistiu em ocultar. Isso porque baseado no oxímoro e no desdobramento, Borges narra o final como se ele fora o presente, daí terem os seus contos a estrutura de um oráculo, pois a pessoa, até a conclusão, não compreende que a história é a sua e que seu destino é definido pela fatalidade: vidas possíveis, mundos paralelos, as histórias dos outros se tecem com a trama da nossa própria identidade, apesar de considerarmos ser a leitura o ato de construir, a partir de experiências estranhas, uma memória privada.

Seria possível reconhecer na obra de Borges, não apenas as pré-faladas marcas do expressionismo de Kafka, como a atmosfera surrealista que impregnou, no inicio do século XX as chamadas vanguardas. Avesso a uma escola que não a dele próprio, o escritor argentino pretendeu distanciar-se do ultraismo, embora não tanto quanto desejara. De qualquer forma sua obra se move como que dentro de um sonho para o qual nos chama e seduz com seu canto, transformando aquilo que consideramos realidade em alvo insignificante. Surrealista ou não, importa transcrever, para meditação sobre o assunto, apenas um texto seu, narrativo, que nos deixa estremecer sob a impressão característica de seu universo inconfundível:

Eu estava com um amigo, um amigo que desconheço: eu o via e ele estava muito mudado. Nunca tinha visto o rosto dele, mas sabia que seu rosto não podia ser aquele. Estava muito mudado, muito triste. Seu rosto estava marcado pela amargura, pela doença, talvez pela culpa. Tinha a mão direita dentro do paletó (isto é importante para o sonho). Eu não podia ver sua mão, que ele escondia do lado do coração. Então o abracei, senti que ele precisava de minha ajuda. “Mas, meu pobre Fulano, que aconteceu? Como você está mudado!” ele me respondeu: “É sim, estou muito mudado”. Lentamente foi tirando a mão. Pude ver que era a garra de um pássaro.

* Lucila Nogueira é poetisa, crítica literária e professora do Departamento de Letras da UFPE.
[Artigo publicado originalmente nos anais do I Congresso Nordestino de Espanhol]

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