A SINGULARIDADE DO CLICHÊ
Força de Avatar vai além do espetáculo 3D e comprova que tratar de temas simples e que falam diretamente de sentimentos humanos não é tarefa simples

Por Mauricio Angelo
Colaboração para a Revista O Grito!, de Brasília

Das camadas de interpretação que Avatar oferece, duas tem sido normalmente utilizadas: a imponência visual do filme e suas diversas “referências” e o mix de clichês dramáticos feitos deslavadamente para tocar o público. James Cameron parece ter produzido “apenas” outro sucesso estrondoso de bilheteria, capaz de arrastar multidões semana após semana. No momento Avatar crava o segundo posto de maior bilheteria da história e o 36º lugar entre os de maior público (vendendo pouco mais da metade do número de ingressos de Titanic).

Primeiro, é normal que os críticos mais “ferrenhos” e “alternativos” não gostem de Avatar. Tudo que faz sucesso demais é um alvo em potencial para ser “ruim”. Como se fosse quase um dever “não se dobrar” a produções do tipo. Todos adoram odiar o “blockbuster enlatado para satisfazer as massas”.

Sim, todos os clichês estão aqui: a fragilidade e sensibilidade dos Na’vi ante o arsenal militar e a crueldade humana, o general fodão extremamente caricato, cheio de cicatrizes e que vai lutar até o último suspiro pra provar sua condição de vilão-mor, a relação inicialmente conflituosa de Jake e Grace que logo vai se transformar num quase mãe e filho, a deficiência física de Sully no mundo “real”, “frio” e detestável dos humanos em contrapartida à extrema liberdade, respeito e amor que seu corpo híbrido lhe oferece em Pandora, o soldado “infiltrado” que rapidamente vai se deixar conquistar por tudo que vê de melhor do outro lado e passará a defender os que eram “inimigos”, a extrema ligação dos nativos com a natureza completamente ignorada pelos humanos e, pra resumir, a história de amor impossível que terá um final inevitavelmente feliz.

James Cameron reuniu todos estes temas universais com alguns bons atores, uma tecnologia de ponta (mais ou menos antiga, levada ao ápice), criando um universo totalmente único, do zero, absolutamente encantador, lançada como “a” experiência cinematográfica imperdível do século (até agora). E é. Muito se fala que o grande trunfo de Avatar é o 3D. Ter sido já feito e pensado no formato. Que o filme perde muito sem isso. Discordo. Por mais “bacana” que seja alguns efeitos que o 3D proporciona no cinema, neste sentido não vi nada de absolutamente fundamental que diminuiria tanto o filme numa projeção “normal”.

É fácil acusar Avatar de ser um mero pastiche de clichês. O que muitos esquecem é que os “clichês” não surgem à toa, ao acaso, não existem por existir. São, muitas vezes, o que de mais real nós temos. O que fala diretamente à uma certa essência humana, à um sentimento de tradição e herança, inconsciente coletivo, etc. Tratar os clichês de forma bela e válida não é coisa fácil nem simples. Cameron conseguiu. Palmas pra ele. Sorte a nossa. A ânsia de buscar sempre algo “diferente” e “outsider” demais parece a tentativa de negar algumas das coisas que mais nos definem.

Se a “fórmula” existe, está aí e é tão conhecida de todos, não seria tão fácil produzir um sucesso como Avatar? A cultura pop é repleta de fórmulas amplamente comuns. O cinema, o rock, a literatura, etc, etc. E há reprodutores e gênios. Copiadores vagabundos e gente capaz de produzir coisas únicas em cima dos clichês. Cameron, pra mim, está sempre no segundo grupo. Existirá dramalhão maior que Titanic? E ainda assim é maravilhoso, cativante, marcante.

De todas as “referências” já alegadas a Avatar (Roger Dean, Delgo, Pocahontas (!?!?!), Miyazaki, Albion, etc, etc) uma pouquíssimo falada é O Novo Mundo, de Terrence Malick. E difícil pensar dois diretores tão diferentes quanto Cameron e Malick. “The New World” me parece o eixo básico de Avatar. Para além da imagem, mas no conceito. Jake Sully passa pelas mesmas coisas que o capitão Smith de Colin Farrell. É o soldado humano invadindo um novo território que é obrigado a se infiltrar na vida dos indígenas, se encanta com a sensibilidade do povo, se apaixona por uma nativa e acaba lutando ao lado deles. Avatar é “The New World” com tecnolgia, em versão sci-fi, turbinada. Ponto.

Os dois, afinal, contam uma história verídica (o filme de Malick se baseia no descobrimento dos EUA pelos colonizadores ingleses) no sentido que parte disto já ocorreu dezenas de vezes no mundo. Só que o final não era feliz. O planeta que conhecemos hoje foi literalmente fundado na base do descobrimento-extermínio-exploração. Na vida real, o armamento e a cultura da tropa invasora aniquilava completamente os indíos (os Na’vi) e o resto do script conhecemos bem. Basta olhar pela janela.

Para além do espetáculo tecnológico, da fascinação do 3D, do mundo absurdamente orgânico criado em computador por Cameron, a força de Avatar, pra mim, está nesse conto tão conhecido e tão capaz de ter relevância. As formas encontradas pra simbolizar cada relação, principalmente a ligação dos Na’vi com os animais e a natureza (através do cabelo, numa troca direta de energia) me pareceu extremamente bela. Uns diriam “brega”, pra mim é real. Por mais que Avatar seja um filme necessariamente “brega”, não há nenhum problema nisso.

Sobre a tal “consciência ambiental” que o filme trata, creio que Cameron nunca foi ingênuo ao achar que a obra pudesse mudar alguma coisa no mundo fora da tela grande. Todos sabemos que nossa capacidade de auto-destruição, ganância e estupidez costuma ser infinitamente maior que alguma “consciência” incutida a fórceps pra gente que acha que separar o lixo é o suficiente a ser feito e tudo vai ficar bem. Não vai.

O mundo será um pouquinho pior quando as duas sequências já anunciadas de Avatar forem lançadas. Cameron pode levar o que criou para onde quiser. E será uma delícia acompanhar. O cinemão, afinal, sempre terá o seu apelo único. E Cameron é, sim, um gênio da raça.

Maurício Ângelo é jornalista, colaborador da Revista O Grito! e editor do Movin Up, onde este texto foi publicado.

Sem mais artigos