Foto: Revista O Grito!/Acervo.

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A iconografia do #OcupeEstelita
Como o poder dos símbolos ajudou a alavancar o ativismo aqui e lá fora

Da equipe da Revista O Grito!
No Recife

O poder da iconografia nos movimentos Occupy começou a ser melhor discutido passados alguns anos após o histórico #OccupyWallStreet, que aconteceu em Nova York em 2010 e se tornou modelo para outras iniciativas anti-capitalistas pelo mundo. O mesmo pode ser avaliado, ainda que de forma menos aprofundada, já que os fatos seguem em pleno curso, do #OcupeEstelita, organizado por um grupo de pessoas no Recife que são contra a demolição do Cais José Estelita para a construção de 12 torres com até 40 andares na área central e histórica da cidade.

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No OccupyWallStreet (OWS para simplificar) ficaram populares as máscaras do personagem Guy Fawkes, que já tinha sido imortalizado pela HQ V de Vingança, de Alan Moore e David LLoyd. O mesmo pode ser dito dos capuzes, o que hoje gera uma controvérsia em algumas discussões no fórum do Occupy, pelo fato de não gerarem um apelo “positivo” e unificador para o movimento.

Mais bem aceita foi o slogan “We Are 99%”, ganhou força em diversas camisetas, cartazes e pôsteres, sobretudo usando a tipografia clássica do “All American”, usada para recrutar soldados para a Guerra Civil, um ironia que colocava o governo dos EUA em posição vexatória. Outra imagem que se tornaria clássica, a bailarina em cima do touro de Wall Street, criada pela revista canadense anti-consumismo Adbusters, era melhor entendida para quem estava por dentro dos ícones do capitalismo americano, mas hoje é encarada como uma poderosa propaganda do movimento.

Crianças brincam no piscinão no primeiro OcupeEstelita, em 2012. (Divulgação).

Crianças brincam no piscinão no primeiro OcupeEstelita, em 2012. (Divulgação).

O ensaísta político Roger Berkowitz, diretor do Centro Hannah Arendt de estudos, disse em um artigo que o que ocorreu com o OWS foi uma guerra de signos – e essa batalha é vencida por quem melhor faz uso de seu principal palco de batalha, que são as redes sociais e quem possui o discurso mais simpático. “Os indivíduos mais velhos, como soldados e crianças, têm um lugar especial na iconografia do movimento Occupy. Eles levaram uma espécie de inocência e vulnerabilidade. Eles estão trabalhando duro para pagarem as suas dívidas. Tudo que eles querem é o que é justo e certo”, escreveu Berkowitz.

A imagem de uma criança segurando um cartaz em Nova York “More Books, Less Bombs” é tão revolucionária no sentido de arregimentar corações para o movimento quanto o longo discurso do filósofo esloveno Slavoj Žižek, na Praça Liberdade, NY. Corta para 2012, no primeiro Ocupe Estelita, no Recife, com mais crianças brincando em uma banheira de plástico e brinquedos de praia. Uma imagem igualmente poderosa e de forte contraste com o possível destino do lugar com suas torres imponentes.

Outro ponto de convergência do movimento do OcupeEstelita em relação a outras iniciativas parecidas ao redor do mundo, sobretudo em Nova York é a apropriação de símbolos populares e também a desconstrução dos logos/imagens de instituições. O Anonymous, por exemplo, transformou o símbolo da ONU em sua logomarca. Uma ironia que tanto tira onda do questionável poder que exerce o órgão hoje no mundo quanto do alcance do grupo de hackers, que tem células espalhadas por diversos países.

A desconstrução como forma de ataque na arte de Daaniel Araújo. (Reprodução/Facebook)

A desconstrução como forma de ataque na arte de Daaniel Araújo. (Reprodução/Facebook)

No Recife, o artista plástico Daaniel Araújo tem uma de suas obras mais conhecidas associadas ao movimento. “Área Sujeita a Ataques dos Barão” está no Cais como parte da ocupação pacífica dos ativistas. Ele ressignificou uma das iconografias mais marcantes do Recife, a placa que avisa dos perigos de nadar nos mares urbanos da cidade. Araújo também é autor dos grafites “Amor Livre”, presentes em diversas partes da cidade. Nas últimas semanas, ele fez projeções no Cais, com imagens que misturava a paisagem do Recife com monumentos como as pirâmides do Egito.

A artista Joana Lira, por anos responsável por ser “a cara” da decoração carnavalesca da cidade também deu sua contribuição para o movimento, com uma arte distribuída em cartolina e que tem o mesmo apelo simpático que Berkowitz já citava.

O desenho de Joana Lira para o OcupeEstelita. (Reprodução/Facebook).

O desenho de Joana Lira para o OcupeEstelita. (Reprodução/Facebook).

Mas talvez o maior legado do #OcupeEstelita do ponto de vista iconográfico seja sua logo, o símbolo de geolocalização tão popular em redes como Google Maps e outras, que dão a ideia de ocupação – esteja o ativista (fisicamente) no Recife, ou na web, em qualquer lugar do mundo. O ícone verde está presente em cartazes, pôsteres, camisetas, pichado nos muros dos galpões do Cais e é parte importante em todo material de divulgação da página oficial no Facebook e também das ações públicas onde os manifestantes estão presentes.

Em 2011, um dos mais importantes designers gráficos dos EUA propôs em artigo no New York Times diversas propostas de logo para o Occupy Wall Street. Apesar de hoje ter uma iconografia marcante, o OWS nunca legou um símbolo que perdurasse nos anos seguintes. A mobilização do #OcupeEstelita, que já logrou tantas conquistas até aqui, já pode dizer que possui o seu.

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O logo do OcupeEstelita. (Divulgação).

O logo do OcupeEstelita. (Divulgação).

Abaixo mais imagens da iconografia do movimento:

Cartaz para o Ocupe realizado este mês. (Reprodução/Facebook)

Cartaz para o Ocupe realizado este mês. (Reprodução/Facebook)

Arte de Mariana Belém (Reprodução/Facebook)

Arte de Mariana Belém (Reprodução/Facebook)

Mashup tira onda com o símbolo da Prefeitura. (Reprodução/Facebook)

Mashup tira onda com o símbolo da Prefeitura. (Reprodução/Facebook)

Arte de Raísa Feitosa. (Reprodução/Facebook).

Arte de Raísa Feitosa. (Reprodução/Facebook).

Arte de Felipe Quérete. (Reprodução/Facebook).

Arte de Felipe Quérete. (Reprodução/Facebook).

Reprodução/Facebook.

Reprodução/Facebook.

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