Art Brut (Foto: Tim Stock)

ART BRUT
It’s A Bit Complicated
[Downtown, 2007]

art-brut-its-a-bit-complicated.jpgA escalada que levou Eddie Argos, vocalista do Art Brut, a se tornar uma espécie de novo trovador britânico autêntico foi rápida. Claro que não se chegou ainda aos pés de um Jarvis Cocker. Este sim é o porta-voz oficial da classe média britânica entediada. Argos é mais nervoso, um pouco mais contundente. O primeiro disco de sua banda, Bang Bang Rock&Roll, versava sobre o significado de se ter um banda e falar das mesmas coisas que 30 anos atrás. Era irônico ao contar como seu irmão caçula descobriu o rock and roll e o crack. Argos é a espinha dorsal do Art Brut. As músicas do grupo servem de cenário para as letras ácidas e diretas do cantor. Cantando como um bêbado ao declamar um poema, Argos é jocoso com o sucesso do novo rock produzido pela Inglaterra. Quando começaram em 2004, o Art Brut era um soco no estômago no oba-oba de bandas que surgiam a todo momento.

It’s A Bit Complicated, o segundo disco do Art Brut, perdeu um pouco a força. A pressão diminuiu e as letras cínicas de Argos não chegam tão relevantes quanto da primeira vez. Isso é o grande problema das bandas que se consagraram cedo demais ou mesmo preencheram uma lacuna no novo rock, no caso de Argos, o de poeta inconformado que usa de ironia para desmoralizar o stablishment.

Esse problema de superação do disco de estréia, diz mais respeito ao impacto que ao som do grupo. As guitarras altas, quase dialogando com a voz de Argos, continuam. O punk dançante, ideal para pular ou se jogar em cima dos outros em shows e pistas de dança, também. Até mesmo o jeito de cantar bastante característico de Argos, agora mais falado do que nunca, permanece neste segundo disco. O que muda mesmo é que o debut Bang Bang Rock&Roll é muito melhor que este. Não há uma única faixa que sejam elevadas à clássicos “desses novos tempos”, como foram quase todos os hits do disco anterior.

“Direct Hit”, com seus assobios jocosos, tem uma alma irônica no nome, e sim, é realmente um hit instantâneo que não sai da cabeça. Ideal para festas. A letra conta a história de um flerte na noite, algo para frequentadores de clubes, como se supõe os fãs do Art Brut. “People in Love”, a balada do disco, é tão lenta que cansa se emocionar com ela. Mas é claro que Argos fez isso de propósito: esta é a música que ele quase não canta nada, só fala. “Pessoas que se amam, terminam acabadas e gordas/Não queria que a gente terminasse assim”, diz a letra. Com “I Will Survive”, Argos volta à auto-ironia ao falar de si como um astro indo à decadência, quando diz “Eu não sei o que estou fazendo/Mas sinto que é sucesso”.

Art Brut ainda é referência de letras inteligentes no rock britânico. Menos bairristas que os Arctic Monkeys, neste disco, abordam sobretudo, relacionamentos e questões pessoais. Um pouco distante dos temas do primeiro álbum: drogas, sexo, rock, mas ainda assim, um grande disco de ótimas letras e melodias. Argos constrói com sua banda uma ótima trajetória na nova música britânica, um passo atrás em relação ao trabalho anterior, mas ainda assim coerente com a essência iconoclasta e entediada do legítimo homem médio europeu. Um contraponto ao glamour e apelo estético de tantas bandas que surgem. [Paulo Floro]

NOTA: 7,5

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