O POP E OS SÍMIOS DO ÁRTICO
Questões para entender o Arctic Monkeys. (e os fenômenos do rock).
por Paulo Floro

Por fora?

Macacos do ártico, como assim?
— O Arctic Monkeys é uma banda de Sheffield, Inglaterra, formada por garotos com idade média de 19 anos. Fenômenos da internet, conseguiram enorme sucesso e público sem nem ao menos gravar um disco. Produzem um rock dançante, provocativo com letras encharcadas de ironia, sarcasmo e ideal pra pista de dança.

O Arctic Monkeys é a revolução?
— Não. Na verdade o Arctic Monkeys é um sub-produto de outra revolução, a do iPod. O aparecimento do tocador de MP3 da Apple gerou uma nova necessidade para o jovem, que hoje não vive sem, por exemplo, um gravador de cd. É a revolução portátil de que a música, agora, além de ser obtida facilmente por todos atraves da internet, também pode ser levada para todo lugar. Um iPod pode armazenar mais de 1500 músicas. Há um conceito subliminar nesta premissa. Você pode ter toda a música que puder ouvir, a qualquer momento, em qualquer lugar. Esta nova era, começou em 2000, quando surgiu o Napster e todo o debate em torno da troca de arquivos entre usuários na rede. Os Strokes foram para a era napster o que o Arctic Monkeys é para a era iPod.

O disco vendeu 360 mil cópias na semana do lançamento. Isso quer dizer ao menos alguma coisa?
— O Arctic Monkeys bateu recordes no Reino Unido. Foi o disco de uma banda de estréia que mais vendeu na semana de lançamento. Seus dois singles lançados até agora já alcançaram o primeiro lugar das paradas no Reino Unido e na Inglaterra. Com músicas já famosas em soulseeks da vida, além do hype de jornalistas musicais e blogs, my space, orkut e afins, seria mais ou menos previsível de que a banda estendesse o sucesso para além do âmbito virtual. No entanto, estas explosões de mídia não são inéditas na imprensa britânica. Antes de lançar seu disco homônimo, o Suede foi capa da NME, enaltecidos como um dos melhores produtos de exportação das terras da rainha.

O Arctic Monkeys são maiores que os Beatles?
— Lógico que não. Eles não inventaram a música pop. Recentemente o semanário inglês New Music Express, fez mais uma lista dos discos britânicos mais importantes. Mal foi lançado, o Whatever People Say I Am, That`s What I`m Not, já entrou em quinto lugar, superando o clássico Revolver dos Beatles. A imprensa britânica, sobretudo a musical, e principalmente os críticos da NME, beiram a esquizofrenia. Extremamente imediatistas, adoram listas polêmicas. Há um certo ceticismo por parte do resto do mundo com as afirmações desta imprensa, mas todos concordam que eles se divertem muito com isso. Por que como o Grito já afirmou como sua máxima, o Hype é delicioso. Antes do AM, inúmeras outras bandas já despertaram esse frenesi. E ao contrário do que muitos críticos andam afirmando sobre o AM, de que daqui a um tempo pouco se ouvirá falar deles, todos os hypes de bandas enaltecidas pela imprensa se tornaram grandes bandas ou fazem sucesso até hoje. Eles estavam certos? É o fato derrubando o mito. Primeiro o Radiohead. O seu Ok Computer de 1997 foi eleito como o melhor disco de todos os tempos, e por mais de uma publicação. E hoje a banda continua sólida e se tornou mega. O finado Suede, com sua legião de fãs, foi um sucesso durante os anos 90 após ter sido ovacionado pela crítica como uma das melhores coisas já criadas pela Inglaterra em termos de música. O Stone Roses são tidos como geniais até hoje, apesar de não terem suportado o peso da importancia que lhe foi imposta pela imprensa. E foi assim com inúmeras bandas; Oasis, Strokes, Libertines, Blur, Pulp, Franz Ferdinand, e mais recentemente The Rakes, Kaiser Chiefs, Racounters… Nenhum deles se tornou efetivamente efêmero. Resta saber se você vai decidir se divertir aproveitando o aqui, agora ou vai teorizar se o antes possuí maior valor ou se tudo se trata do mais do mesmo.

No cenário de bandas atuais o AM se enquadra no chamado novo-rock?
— Esse termo ainda é muito usado para se referir a bandas pós-strokes e que se utilizam da internet como principal meio de divulgação. No entanto tudo agora já retorna ao mesmo lugar de antes. O Arctic Monkeys é uma banda do britpop, e sua música não possui nada de inovador que o retire deste rótulo ou que não o enquadre em estilo algum. Na verdade, como a maioria das bandas inglesas, há um certo (e esforçado) prazer em preservar uma estética inglesa, muitas vezes quase bairrista que conquista meio mundo. Isto vai desde Mark skinner do The Streets até o próprio Alex Turner do Arctic Monkeys. Este fenômeno não é visto em nenhuma outra cena musical no mundo. Como diria Tchekóv, fale de sua aldeia e você será universal.

Por que diabos esta banda fez tanto sucesso?
— Um dos principais marketings do grupo é a pergunta que se faz sobre o sucesso da banda. Confuso? sim. Pra começar o hit “I Bet You Look Good In The Dance Floor” foi um sucesso, as letras da banda falam de coisas prosaicas com humor e cinismo. O som da banda parece feita por encomenda para bombar em clubs e festivais. Catarse? Talvez. O grupo começou tocando na garagem do líder Alex Turner tentando tocar covers dos Strokes. É incrível como foi rápido para que a primeira banda influenciada pelos Strokes aparecesse. E isso não faz nem dois anos.

É provável vermos a banda no Brasil esse ano?
— Pra aumentar o sucesso da banda aqui no Brasil, é quase certeza que o grupo estará aqui ainda este ano. Provavelmente no segundo semestre e no Tim Festival. E como o Brasil já entrou na rota das grandes turnês das principais bandas é bem provável que outra sensação pós-artic Monkeys também apareça por aqui em 2006.

Agora, não menos importante, este Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not” é mesmo bom?
— Mais ou menos. O disco é muito longo. Se tivesse tipo, umas 9, 10 faixas seria um clássico mesmo sem a internet ajudando. A impressão que fica é que além de uns 5 ou 6 hits o disco precisa de muitas audições pra se tornar digestível. Além disso tudo o que se escuta aqui já foi feito. E o furor da novidade foi há uns dez anos. Whatever… é o melhor álbum do ano até agora, e com certeza ainda terá muito a ser processado, digerido, incenssado. É divertido, absurdamente. “A Certain Romance”, com seu ska meio torto, “I Bet You Look Good In a Dance Floor”, já meio clássica e “Fake tales of San Francisco”, com um apelo grudento, fora a faixa “The View From Afternoon”, minha preferida e “Riot Van”. Mas nada que mereça o título de obrigatório.

Por que as músicas têm títulos tão grandes?
— Vá perguntar ao Surjan Stevens!

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