Arcade Fire Divulgação

A BENÇÃO ALTERNATIVA
Nova bíblia musical do Arcade Fire leva a banda para caminhos sombrios e obscuros
por Mariana Mandelli

Quando a expectativa é demais o fã desconfia. O que justifica o assustador hype em cima do novo trabalho dos canadenses do Arcade Fire é justamente a solidez encantadora do primeiro álbum, Funeral (2004). É sempre difícil superar um grande feito, ainda mais nesse concorrido mercado musical pós-moderno em que vivemos, com dezenas de bandas boas pipocando a cada semana.

O sucesso de Funeral levou a banda, liderada por Win Butler, aos primeiros lugares das listas de melhores álbuns de 2004. O disco, peculiarmente impecável, tornou-se uma obra-prima indie consagrada no mundo inteiro, tornando o Arcade Fire um dos grupos mais queridinhos e amados do universo do rock alternativo – quem compareceu a uma das apresentações brasileiras da banda, no TIM Festival de 2005, sabe do frisson que a força musical e a presença de palco dos integrantes causam no público.

Todo esse clima de adoração messiânica em torno do Arcade Fire acabou gerando as mais diversas expectativas para o segundo trabalho – ainda mais depois que foi anunciado que a banda havia transformado uma igreja em seu estúdio de gravação, em Montreal, na busca por uma melhor acústica.

Eis que, após um período de quase três anos e tanto falatório especulativo, Neon Bible chega para acalmar os ânimos dos fãs devotos. E é justamente neste ponto que a coisa se enrola: Neon Bible não vem para tranqüilizar ninguém. Muito – mas muito mesmo – pelo contrário: o clima espiritualmente denso do disco cria um espectro de essência lúgubre e melancólica no ouvinte. E isso não é uma crítica negativa. O novo álbum não é mais nem menos do mesmo – quem estava esperando algo muito parecido com a atmosfera de “Funeral” pode se assustar à primeira “ouvida”. A diferença é que Neon Bible é mais complexo e mais difícil de digerir de uma vez do que seu antecessor (afinal, convenhamos, foi bem difícil não se apaixonar logo de cara por Funeral).

Para os ouvintes desavisados, as canções da nova obra do Arcade Fire não parecem conter a mesma coesão que Funeral, álbum quase conceitual que soa como uma única música. Mas basta ouvir Neon Bible duas ou três vezes para absorver suas canções, deixando-se levar pela musicalidade carregada e desconsoladora que a banda propõe. Faixa após faixa, o que se percebe é uma evolução de sonoridade complexa que alterna tons de pessimismo e otimismo, consternação e empolgação. É interessante perceber esse grande paradoxo que acompanha a obra da banda: canções extremamente vivas que falam de morte, dor, perda, tristeza. Trabalhar essa antítese espiritual talvez seja o segredo do trabalho do Arcade Fire, que já conquistou David Bowie, David Byrne, Bono Vox e todos nós, pobres mortais, devotos da incrível fantasia musical.

Arcade Fire ao Vivo>

ARCADE FIRE
Neon Bible

[Merge Records, 2007]

Arcade Fire - Neon BibleNeon Bible afirma a identidade sonora do Arcade Fire: além do universo explorado nas letras ser quase comum a Funeral, a instrumentalidade complexa e original que conquistou o mundo está presente nas onze canções do álbum. Coro de vozes tristes, órgão, violino, acordeon, guitarra, baixo, bateria, percussão, xilofone, piano, teclado, viola, violoncelo, harpa, sanfona, sintetizadores e mais outros elementos musicais, que tornam a obra dos canadenses tão especial, reforçam o jeito de culto ecumênico do disco.

As canções de “Neon Bible” destilam o infortúnio da existência humana, demonstrando as desventuras da alma condenada a viver presa dentro de si mesma. Essas reflexões parecem explicar também os caminhos que a humanidade percorre; trajetórias que levam a um destino soturno e fantasmagórico. Algumas faixas demonstram bem isso: “Black Mirror” abre o álbum soando taciturna, com um ar de trilha de filme de terror ou de alguma animação macabra de Tim Burton.

Já “Keep the Car Running” é, precisamente, a que mais evoca a estética musical deliciosa e empolgante de Funeral. “Intervention”, com seu clima cristão, traz um órgão marcante. Já “No Cars Go”, “macaca velha” para quem é fã da banda, volta repaginada e ainda mais emocionante.

Enfim, “Neon Bible” funciona como uma espécie de missa póstuma para este mundo genocida em que vivemos. É um álbum imerso numa atmosfera taciturna e apocalíptica, carregando um sentimento perene de luto – assim como caminha a humanidade. Amém.

Nota: 9,0

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