A VIDA É UMA TARDE DOURADA
O Melancólico Ao Entardecer não vai além do melodrama ao abordar questões humanas
Por Fellipe Fernandes

AO ENTARDECER
Lajos Koltai
[Evening, EUA, ALE, 2007]

O que se passa na mente de uma pessoa quando está à beira da morte? Como serão os últimos momentos de nossas vidas? Questões como essas sempre despertaram a curiosidade dos homens e, por isso mesmo, é tema recorrente nas artes. Outras questões presentes no imaginário popular são as relativas ao passado e à juventude: como nossas escolhas são capazes de afetar nossas vidas? Ou ainda: como estaríamos hoje se tivéssemos feito uma escolha diferente? Ao entardecer, de Lajos Koltai, tenta responder a essas e outras questões a partir da história de Ann – interpretada por Claire Danes na juventude e Vanessa Redgrave, no fim da vida – banhado por uma dose de nostalgia e uma fotografia melosa em tons de dourado.

No leito de morte, Ann é assistida por suas filhas Nina – a sempre competente Toni Collette – e Constance – Natasha Richardson, que contracena com a própria mãe, Vanessa Redgrave. Entre delírios e sonhos, ela recorda momentos vividos num fim de semana em 1958, quando foi ao casamento de uma amiga, Lila. Numa família aristocrata, Lila – vivida por Mamie Gummer e por sua mãe, Meryl Streep, cuja participação no filme se resume a poucas cenas – decide sufocar sua paixão pelo filho de uma empregada, o médico Harris, vivido por Patrick Wilson, e se casar com outro homem. O irmão de Lila, Buddy (Hugh Dancy), um jovem sensível e atormentado, se diz mortalmente apaixonado por Ann, mas ela vive aquele que será o maior amor de sua vida nesse mesmo fim de semana, com Harris. Em meio a essas lembranças, os dramas de Nina e Constance vêem à tona ao lidarem com o passado e com o fim da vida de sua mãe.

O longa-metragem segue uma fórmula dramática pronta, feita para arrebatar as platéias que procuram algo de qualidade nos filmes comerciais. O fato de trabalhar temas tão recorrentes e universais reforça essa tentativa de atingir a massa através de algo que é vendido como um produto de qualidade superior, mas que na verdade não vai além do melodrama. Talvez venha daí a decepção de público e crítica. Baseado num livro de Susan Minot, o roteiro de Michael Cunningham, mesmo roteirista de As Horas, parece querer resolver aquelas questões que despertam a curiosidade humana, o que, no entanto, leva apenas a uma simplificação de tais questionamentos.

A finitude das pessoas, dos relacionamentos e da juventude, é mostrada de forma diluída e melancólica, sem trazer nada demais para a visão corrente de tais temas. O filme, assim, apenas perpetua uma linguagem já conhecida, não trazendo nada de novo. Passa, entretanto, como entretenimento de fim de tarde para assistir com amigos e afins – não sem sentir o desconforto da poltrona – e pelo menos ouvir a sentimental, porém imbatível, “Time After Time”, de Chet Baker, na voz da protagonista, que “por acaso” é cantora de jazz – uma pena o “acaso” não ter atuado mais nesse filme tão racionalmente executado.

NOTA:6,0

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