Dores Geniais
Por Paulo Floro

Em 1974, Candy Darling musa de Andy Warhol estava numa cama de hospital e tudo que restava de um passado de glamour eram lembranças. Apesar do cenário de dor, sofrimento e resignação, Candy estava com o seu melhor vestido e sua maquiagem escondia as marcas de sofrimento, causadas pela leucemia e pela AIDS. Também flores, como despedidas completavam o quadro.

É com a foto de uma superstar drag de Warhol que Antony and the Johnsons inicia a sua segunda obra, I Am a Bird Now. Uma das coisas mais espetaculares da música em 2005, uma melancolia que se inicia na capa e encarte, se aprofunda de infinitas maneiras no disco, ou seja, uma tristeza explicita ou uma alegre catarse espiritual. Recheado de soul, pianos, tudo levado pela doce, brilhante e angustiante voz de Antony, o álbum ainda conta com a participação de nomes como Lou Reed, Boy George, Rufus Wainright e o cantor folk-místico Devendrta Banhart.

Desde que apareceu, Antony acumula admiradores no mundo pop. Reza a lenda que Lou Reed escreveu a música “Candy Says” para Candy Darling e nunca conseguiu canta-la ao vivo com a interpretação merecida, e que o líder do Velvet Underground chorou ao ouvi-la na voz de Antony. Antony começou em Albiom, filho de um engenheiro e uma fotógrafa, onde cresceu ouvindo divas do jazz, Marc Almond, Boy George e Laurie Anderson. Depois de um tempo na Califórnia se muda para Nova York, motivado pelo documentário Mondo New York. Lá, fez parte de uma banda chamada Blacklips, liderada por um japonês albino hermafrodita. Na cidade guardou para si referências que mais tarde colocaria em sua obra; os cabarés, os travestis, o submundo andrógino da Big Apple, os redutos do jazz, rock dos anos 70… Antony ainda foi back-vocal em algumas bandas antes do disco Antony and the Johnsons de 2003. Foi após ouvir este disco que Lou Reed o convida para participar de seu álbum The Raven. Reed considera Antony o legitimo herdeiro das dores e sofrimentos vividos por quem conheceu o espírito pré-punk, e tudo isso cantado de uma maneira arrebatadora.

Hoje, Antony é considerado a nova voz do rock. É difícil encontrar paralelos no pop atual. Laurie Anderson, musa do cantor afirmou que “descobrir Antony é como ouvir Elvis pela primeira vez”. Longe o suficiente da trilha pop seguida por semanários e publicações, Antony and the Johnsons é uma força sincera, quase espiritual.

ANTONY AND THE JOHNSONS
I Am A Bird Now

[Secretly Canadian, 2005]

Antony canta como um prisioneiro. Sua voz possui desespero e esperança e os contrastes não terminam por aí. Durante muitas partes do disco se percebe a dualidade homem X mulher, de estar preso num corpo masculino, quando sua alma anseia liberdade.

“I Am A Bird Now”, começa com a voz trêmula levada por um piano mínimo que desemboca num majestoso final de vozes, pianos, sopros e vocais de apoio. Em “For Today I Am A Bouy”, é explicito o desconforto, mas ao mesmo tempo uma esperança dolorida, em se falar de sua sexualidade (For Today I Am A Bouy/ When I Grow Up/ Be Beautiful Woman) por isso tudo, Antony já foi confundido com um transexual em suas apresentações ao vivo. É com este segundo disco que vem a tona por completo o talento de Antony e sua banda, com precisos toques de jazz, soul e rock. Emulando Nina Simone, temos a “Man Is The Baby”, onde quase podemos ver as dores de uma Nova Iorque soturna e impiedosa. A cidade, junto com seus ícones é outras das fontes de inspiração de Antony. Um de seus ídolos também colabora em I Am A Bird Now; Boy George, no dueto “You Are My Sister”. Não são poucas as participações especiais no disco, Rufus Wainright (“What Can I Do”), Devendra Banhart (“Spiralling”) e evidente, Lou Reed (“Fistfull Of Love”), a melhor música do disco, quase alegre, emocionante, mágica.

Não esquecendo de lembrar que, foi com este disco que Antony and the Johnsons venceu o premio Mercury Prize, um dos maiores da indústria britânica. Sua voz impar desbancou ídolos-rock com Kaiser Chiefs e o favorito The Killers. Antony, sem medo de se esconder, divulgou ao mundo suas dores, amores, despidos de qualquer fórmula e fez o álbum mais belo de 2005. Não procure por nada mais genial por hora.

NOTA: 10

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