FORTUNA CRÍTICA DOS ANOS DE CHUMBO
Desiderata termina a publicação da coleção de um mais influentes veículos da imprensa brasileira
Por Talles Colatino

Há 40 anos, a primeira edição do mais notório representante da imprensa marginal foi às ruas. Em plena ditadura militar, poucos meses depois da promulgação do ferrenho Ato Institucional 5, o Pasquim dava o primeiro passo numa história de transformação da produção jornalística brasileira, com a ascensão do jornalismo gonzo. O humor inteligente do Pasquim foi fundamental para sobreviver, com senso crítico inclusive, aos anos de chumbo.

Para celebrar a atuação da publicação, a Desiderata lança o terceiro e último volume da Antologia do Pasquim, englobando 50 edições, que rodaram entre maio de 1973 e abril de 1974, com prefácio assinado por Luís Fernando Veríssimo. O livro fecha o projeto iniciado em 2006, quando saiu o primeiro volume da coletânea.

Durante o período englobado pelo terceiro volume, a sede do jornal mudou-se do Jardim Botânico para Ipanema, à época centro de uma nem tão tímida efervescência contracultural. Millôr Fernandes ocupava o cargo de editor, enquanto Henfil atuava como editor-executivo. Ziraldo e Jaguar respondiam pela arte gráfica e edição de arte, respectivamente, e Ivan Lessa e Sérgio Augusto imprimiam um estilo peculiar ao texto final, mesclando erudição, ironia e bom humor. Paulo Francis, a última chave motora da equipe, já estava radicado em Nova York e mandava seus originais pelo malote da Varig (que nem sonhava com a crise na época). Juntos, essas cabeças pensantes foram gênios em seus trabalhos e na arte de driblar a censura prévia.

Nada passava incólume ao time do Pasquim. Se as notícias no País já não eram das melhores, as que vinham de fora também não eram das mais animadoras. Mas nada que não pudesse ser discutido, de uma maneira crítica e divertida. Entre os temas presentes nessa edição, estão o golpe militar do Uruguai, as chacinas em Uganda e a Guerra do Yom Kippur no Oriente Médio. Dentro das pautas culturais, estão verdadeiras pérolas como os primeiros ensaios escritos pelo cineasta Woody Allen, além de entrevistas com figuras nacionais transgressoras e fundamentais para a história do Pasquim como Rogéria e Lupicínio Rodrigues.

As artes gráficas também conquistaram um espaço privilegiado no Pasquim. Virou o mascote do jornal o ratinho Sig, criação de Jaguar para o anúncio de uma marca de cerveja, que é onipresente nas edições como porta-voz de comentários ácidos e ótimos sobre os temas do jornal. Isso sem contar as ilustrações e charges de Henfil e Ziraldo, responsável por, certamente, vários sorrisos cúmplices de piadas sobre o nada regular cotidiano daqueles tempos. A participação de Quino, com sua Mafalda, e cartunistas como Nani e Redi completam a fortuna crítica dessas publicações. Em uma palavra: indispensável.

CAPAS
A Desiderata lança ainda Pasquim 40 anos, que compila cerca de 80 capas emblemáticas do jornal e reúne textos inéditos de Millôr Fernandes, Chico Caruso, Jaguar e Sérgio Augusto. Millôr, inclusive, criou uma ilustração inédita nos moldes das capas veiculadas na edição original d’O Pasquim. Imagens clássicas, como a caracterização de Rogéria como Mona Lisa e Leila Diniz com uma toalha na cabeça foram, felizmente, lembradas na edição.

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