SOBRE FEMINISMO E MISOGINIA
Fruto do orgulho e do choque, o Anticristo de Lars Von Trier deixa o espectador entre a cruz e a espada ao tentar identificar, no filme, uma obra-prima, ou um elogio gratuito à violência e bestialidade
Por Fernando de Albuquerque

Obra-prima ou disparate cênico? Retrato fiel da natureza dos homens ou recurso à cosmética da dor? Uma série de dúvidas pairam na cabeça dos que assistem o Anticristo de Lars Von Trier. Muito já se tentou dizer sobre o filme e quase todas as críticas à respeito choveram no molhado (essa daqui também vai, muito provavelmente). Mas a bem da verdade, é impossível passar incólume ao filme que presta uma homenagem a Tarkovsky e que foi dirigido pelo diretor palma de ouro por Dançando no Escuro e dirigiu obras célebres como Dogville e Os Idiotas.

O enredo é prático e desde o começo não deixa dúvidas ao espectador que entrou na sala de exibição só pelo nome do diretor. Na telona, Charlotte Gainsbourg e Willem Dafoe são um casal em crise após morte do filho que caiu da janela do apartamento enquanto eles transavam (qualquer semelhança com o caso “Menina Isabela” é pura coincidência). A loucura vivenciada pelos dois (ele um terapeuta e ela historiadora) começa a tomar rumos bem perigosos, quando Dafoe leva sua esposa para passar uns dias na floresta para uma possível “integração” com a natureza. Esse caráter natureba acaba se transformando num sonho aterrador e pouco usual. A personagem de Gainsbourg surta por completo e daí começa a repetição de uma série de escatologias que podem levar muita gente para fora da sala.

Em uma palavra, o filme de Von Trier é mordaz e extremamente surrealista. Ele carrega na simbologia medieval, em exemplos de feitiçaria e nas referências à artistas plásticos da idade das trevas. Cheio de sombras, o filme ensaia um certo culto satânico que, ao aparecimento de três mendigos, alguém deve morrer. Chamados Luto, Dor e Desespero, o nome dos mendigos ilustram cada um dos capítulos do filme. Se configurando enquanto uma forte referência aos reis magos, da parábola do nascimento de Cristo, mas que aqui ganham cores mais animalescas já que uma raposa que come a si mesma e pronuncia palavras, um corvo que não morre um cervo em constante processo de aborto é que encarnam esse trio que alenta o embate entre o sagrado e o profano.

No dilema entre o bem o mal, a natureza aparece como mediadora da ação de todo e qualquer animal e entra em constante conflito com as personagens. A floresta ganha uma áurea de limbo medieval em que outras almas perdidas contracenam e vivem o mesmo processo de auto destruição dos protagonistas. E nessas escolhas do cineasta uma proposital escolha pela violência gráfica e gratuita leva o espectador a um pesadelo onírico onde a imensidão da floresta incorpora a claustrofobia de um cubículo.

Daí em diante os personagens de Dafoe e Gainsbourg passam a vivenciar emoções primitivas e que nos transportam a um sentimento constante de retorno às origens. São cenas de mutilação das genitais, sexo selvagem, agressão, perfurações e ataques com armas brancas que nos fazem lembrar do teatro parisiense do gran guignol, de horror naturalista.

Diversas cenas remetem o espectador ao filme Morte do Demônio, aos elementos religiosos do cinema de Carl Dreyer e ao cinema de Dario Argento, mestre do terror italiano. E para tanto, podemos lembrar do livro encontrado no sótão, os sons da floresta, vento, névoa, árvores caindo, a perna perfurada perto do calcanhar e a masturbação. Essas são só algumas referências de muitas outras semelhanças. Basicamente o filme pode ser analisado como uma possessão demoníaca ou como um embate da psicologia contra uma pessoa traumatizada.

NOTA: 8,0

http://www.youtube.com/watch?v=Tm2A15GCs14

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