Além de Martin e seu icônico personagem Alix, o festival ainda dedicou exposições para Emmanuel Guibert e Marion Montaigne

Da Revista O Grito!, em Angoulême (França)

Durante anos criou-se na França uma cultura de quadrinhos que se desprende de um apelo comercial/mercantilista, ainda que suas histórias mais famosas tenham tiragens altíssimas e trabalhe com cifras altas. Mas é a concepção dessas obras como objetos de apreciação popular, como arte, que diferencia o modo como a Europa entende e consome HQs em relação ao resto do mundo. Três exposições no Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême celebram três autores franceses, de diferentes estilos e temas: Emmanuel Guibert (de A Guerra de Alan), Jacques Martin, criador de Alix e Marion Montaigne, do blog Tu mourras moins bête… mais tu mourras quand même.

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Uma das maiores exposições desta edição, L’Art de Jacques Martin (1921 – 2009) ocupou parte do Museu de Quadrinhos de Angoulême, com painéis enormes e muita informação contextualizada. Martin representa o espírito do quadrinho clássico francês, de linha clara e muito ritmo narrativo, uma produção larga cujo trabalho de maior destaque é Alix, série sobre um jovem escravo de origem gaulesa nos tempos de Júlio Cesar. O personagem completa 70 anos em 2018.

A exposição reuniu uma grande retrospectiva e trouxe cerca de 150 originais, entre desenhos e documentos raros, a exemplo de fotos, cartas e roteiros. Criado em 1948 e publicado originalmente no Journal de Tintin, a obra ganhou várias edições com participação de Martin até 2009.

Há uma tentativa de desconstruir Alix, o que o tira da sua aura juvenil heroica para revelar um personagem complexo, até contraditório. Um herói que tem como força-motriz de suas histórias o desejo de fazer justiça, mas que, ao mesmo tempo, é parte de uma engrenagem violenta que era o período greco-romano e seu escravismo.

Martin levou para os quadrinhos, ainda que de forma bastante discreta, as tensões do período em que escrevia a obra (sobretudo da década de 40 a 60), como a Guerra Fria, o neocolonialismo, os movimentos juvenis na França). Ele ainda abordou de forma pouco explícita o homoerotismo que existia na Grécia através da relação entre Alix e Enak. “Os personagens são dois arquétipos do mundo antigo. Eu não posso impedir meus leitores de imaginar e confabular toda sorte de interpretações”, disse Martin em uma entrevista ao jornal Libération em 1996, em trecho exibido na exposição.

Por fim, a exposição mostrou toda a pesquisa que Martin fez para compor as histórias e a construção de Alix ao longo dos anos.

Detalhe da exposição de Emmanuel Guibert. (Paulo Floro/OGT).

O poder do ambiente

Emmanuel Guibert venceu o prêmio Renné Goscinny em 2017. O troféu foi criado pelo autor de Asterix para homenagear autores que se destacam pelo talento em criar cenários. Goscinny defendia que a ambientação é parte importante de um quadrinho e que não só ajuda como é essencial para uma boa narrativa.

Guibert é incrível como criador de cenários, mas também de clima e ambientação. Quem leu uma de suas obras mais famosas, A Guerra de Alan, sabe como é difícil sair daquela história após a leitura. A sensação foi parecida com a exposição. Instalada na Cité Internacional de La Bande Dessinée, o espaço dedicado ao autor reuniu originais, vídeos e informações sobre o seu processo criativo.

Grande parte da expo foi dedicada à saga da Guerra de Alan, que mostra a vida do soldado norte-americano Alan Ingram Cope na Segunda Guerra Mundial. Guibert acompanha desde os momentos mais terríveis do conflito até o período de adaptação pós-Guerra de Cope na Europa. Há também muito material sobre O Fotógrafo, que o autor fez em parceria com Didier Lefèvre sobre o Afeganistão, além da série de álbuns infantis Sardine, em parceria com Joan Sfar.

A exposição em Angoulême celebra o estilo de Guibert como “uma pessoa que desenha como se escrevesse” por sua capacidade de contar a história através da interação de personagens e cenário. Há ainda um passeio pelo interesse de Guibert pelo Japão com muitas pinturas, trabalhos em tecido e instalações bem bonitas que traz um lado pouco conhecido do autor.

Em tempo: A Guerra de Alan saiu em 2010 pela Zarabatana no Brasil e O Fotógrafo foi lançado em três volumes pela Conrad em 2008 (hoje encontrado apenas em sebos).

Um dos nomes celebrados do atual quadrinho francês, Marion Montaigne fez sua carreira na internet através do blog de humor “Tu mourras moins bête… mais tu mourras quand même !”, que depois virou livro. Com humor ácido e direto, Marion faz graça do cotidiano, mas também atua por vezes numa proposta mais absurda e nonsense ou até mesmo parodia séries de TV, como Game Of Thones.

Ela fez parte da Seleção Oficial do festival com o livro Dans la combi de Thomas Pesquet, que conta a história real do astronauta francês que foi até a Estação Espacial Internacional. A exposição, bastante lúdica e divertida, trouxe trabalhos de diversos momentos da autora e aconteceu na mediateca de Angoulême.

O festival trouxe ainda outras exposições interessantes, a exemplo do suíço Cosey, que venceu o Grand Prix do ano passado e Gilles Rochier, autor que faz autoficção em paisagens urbanas.

* O jornalista viajou em uma parceria com Institut Fraçais e o Consulado Geral da França no Brasil.

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