angel13.jpg

CONTO DE FADAS ROSA-CHOQUE
Novo filme de François Ozon guia o espectador por interrogações
Por Rafael Dias

Não adianta. Vasculhe o orkut, cine reviews internacionais, blogs de críticos nacionais, dê uma googleada, veja o trailer no youtube… Não achará o mínimo de consenso em torno do novo filme de François Ozon, Angel: só opiniões díspares, um dissenso meio insano. Em seus comentários, os críticos, supostos donos da verdade, oscilam entre “adorável”, “chatíssimo” e “gosto muito de Ozon, mas esse filme é estranho”. Até os fãs ardorosos estão reticentes. A frase melhor foi esta: “está longe de ser Ozon, mas não é ruim” (e fica a pergunta para quem não faltou às aulas de lógica: afinal, o que não é ruim, é o quê? É bom? Razoável? Simpático?). Controverso, o autor do excêntrico 8 Mulheres está acostumado a isso. Se é assim, nesse novelo de vozes, então aqui vai mais um: Angel é um conto de fadas rosa-choque, anti-establishment, inteligente e sagaz.

A dúvida que paira no ar e causa incômodo nos espectadores que tiveram chance de ver o filme em sessões prévias é quase ontológica. Afinal, o que é Angel? Uma paródia aos romances clássicos britânicos? Ou uma homenagem? Uma declaração de amor? Um pastiche? Sim, a resposta é sim, para todas as alternativas. O filme mais barroco e refinado de François Ozon é tudo isso. Adorável e grotesco, Angel é propositalmente exagerado, verborrágico, talvez por isso mal-compreendido por quem anseia por um enredo linear.

A trama, de ambiência inglesa, parece extraída de um livro de Jane Austen, Thomas Hardy ou dos contos de Oscar Wilde. O filme, no entanto, é baseado no livro da escritora britânica Elizabeth Taylor (1912-1975), homônima da atriz de Cleópatra. Conta a história de Angel Deverell (com a bela Romola Garai, nova musa de Ozon, a mesma que fez Briony Tallis na fase adolescente em Desejo e Reparação), uma campesina impetuosa e sonhadora, filha de comerciantes da pequena cidade de Norley, que deseja se tornar uma escritora de sucesso na Londres das primeiras décadas do Século 20. Após realizar o feito, a heroína romântica se envaidece de arrogância, cercada por um mundinho particular perfeito – o castelo dos sonhos, seu príncipe encantado, o pintor Esmé (Michael Fassbender) e de seus livros cheios de doses de paixão e fantasia. Não demora muito para que seu universo frágil e surreal imploda em pedaços como uma bomba H em seu colo.

A personagem principal, embora seja pouco crível, é fidedigna. Inspirada na escritora Marie Corelli, contemporânea de Oscar Wilde e autora favorita da rainha Vitória, que apesar de colecionar inúmeros best sellers caiu no amargo ostracismo, Angel Deverell conjuga o bizarro e doce. Nem vilã nem mocinha, é fiel à sua natureza complexa, conturbada e difusa. Em entrevistas, Ozon diz que Angel é idêntica a Scarlet O’hara (de O Vento Levou…), uma figura verdadeira “que você ama e odeia ao mesmo tempo”. Em contraponto à heroína amoral, está ótima a Charlotte Rampling no papel da mulher do editor, de temperamento cético e realista.

O mistério é o ponto-chave de Angel. É preciso esperar até o final para entender o porquê dos tons verborrágicos, cenas clichês e tintas fortes. Talvez por isso um clamor e tantos pontos de interrogação: a ironia fina não está clara ao longo da narrativa, ela vem à tona só no desfecho, no último suspiro do filme. Tudo bem. Era o caso, provavelmente, de Ozon trabalhar com pistas mais explícitas, abrir o jogo gradativamente, jogar suas sacadas sarcásticas como de praxe em seus primeiros filmes. Mas ele preferiu a finesse do subtexto, optou pelo implícito.

É verdade. Não é Ozon em toda sua grandiloqüência. Mas, numa análise mais acurada, suas características estão lá, sublinhadas. O que dizer, por exemplo, da sutil paixão platônica de Nora, irmã de Esmé, fiel companheira de Angel, pela sua patroa? Ozon nunca esteve num apuro maior do seu próprio exagero. Seus excessos se justificam. Ademais, vale a pena ver o show de fotografia e figurino impecáveis até chegar a um final de uma singeleza comovente.

ANGEL
François Ozon
[Angel, França/Bélgica/Inglaterra, 2007]

NOTA: 9,0

Trailer do filme

Sem mais artigos