Foto: Focus Features
cena de Lost, Caution: tensão

ESTUDO DO DESEJO
Depois do romance dos cowboys gays, Ang Lee ataca com cenas de sexo explícito reais
Por Cláudia Vital

Depois de vencer como melhor filme no Festival de Veneza desse ano, Lust, Caution dirigido por Ang Lee tem causado mais polêmica do que O segredo de Brokeback Mountain, último longa do cineasta. Tanto agito se deve ao fato de caprichadas cenas de sexo explícito. O filme recebeu censura máxima nos Estados Unidos e para que pudesse ser exibido na China meia hora das cenas picantes foram cortadas.

Não se trata de um filme pornô, nada disso. Lust, Caution traduzido como Desejo, Cautela não explora as relações corpóreas com a finalidade de espetacularizar o sexo; as cenas intimistas são necessárias ao próprio roteiro. Baseado no livro da chinesa Eileen Chang cujo o nome é Sie Jie, título do filme em mandarim, a história se passa nos anos 1940 em Xangai durante a ocupação pelos japoneses na Segunda Guerra Mundial. Nesse contexto, a estudante de teatro Wong Chia Chi (Tang Wei) foi selecionada pela resistência chinesa com objetivo de seduzir e matar Yee (Tony Leung), um colaborador de alta patente do governo japonês. Traída pelos próprios sentimentos, a jovem vê-se dividida entre o dever e o desejo. A espionagem e o sexo são o fio condutor da trama, proporcionando a história um clima de suspense erótico.

Lust, Caution já está na lista das produções que mais causaram escândalo em Veneza, e a imprensa local parece não ter recebido de braços abertos o resultado da premiação. O jornal italiano Gazzettino lembrou que o anúncio de que Ang Lee levaria o Leão de ouro foi acolhido com vaias pelos jornalistas, e ainda argumentou: “Dois Leões de Ouro em dois anos? Isso faz pensar em um Orson Welles, um Antonioni, um Buñuel ou Bergman, porém é apenas Ang Lee”. Nos Estados Unidos o longa foi proibido para menores, que significa prejuízo na bilheteria. Na China não teve jeito, ou retirava-se as cenas de explícito ou não era exibido, já que lá os filmes não são classificados segundo a faixa etária. Para as autoridades chinesas, filme que não presta para criança ver também não é bom para adulto. Um estímulo a pirataria.

Diretor é múltiplo nos gêneros e temas

Ang Lee nasceu em Taiwan, 1954, mas mora nos Estados Unidos desde 1978. Estreou como diretor em A arte de viver (1992), no ano seguinte ganhou o Urso de ouro, em Berlim, com O banquete de casamento. Em 1994 lançou Comer, Viver, Beber, depois de um ano dirige Razão e Sensibilidade, o primeiro com elenco internacional. Tempestade de gelo, Cavalgada com o diabo e o premiado O tigre o dragão que levou o Oscar de melhor filme estrangeiro foram seus próximos trabalhos. Lee ficou um pouco esquecido ao lançar Chosen em 2001 e Hulk em 2003, adaptação corajosa do cineasta, mas que não despertou grande interesse. Foi com O Segredo de Brokeback Mountain (2005) que reconquistou olhares ao ganhar o Oscar, Globo de Ouro e primeiro Leão de ouro da carreira.

Em Lust, Caution (2007) o diretor novamente demonstrou ousadia. No penúltimo filme O segredo de Brokeback Mountain ele abordou a homossexualidade e o amor entre dois cowboys. Dessa vez, Lee cutucou as antigas estruturas do conservadorismo. As extensas cenas de sexo explícito tiveram direito até a sodomia e segundo o diretor todas as cenas foram reais. O filme que ganhou o Leão de Ouro em Veneza, o segundo da carreira de Lee, foi aplaudido pela crueza das imagens, poesia da narração e a premiada fotografia de Rodrigo Prieto. Ang Lee entrou para a seleta lista dos que ganharam por duas vezes o pricipal prêmio do Festival de Veneza.

O cineasta que já fazia sucesso agora começa a ser consagrado. O diretor geral do Escritório de Informação do Governo, Shieh Jhy-wey, elogiou Ang Lee como uma das glórias de Taiwan e entregou um cheque no valor de US$ 303 mil ao cineasta. Este por sua vez, demonstrou sensibilidade ao anunciar que parte do dinheiro seria doado para ajudar artistas e diretores de Taiwan.

Com fama de conseguir retirar brilhantes interpretações dos atores que dirige, é conhecido como um dos cineastas mais versáteis da indústria cinematográfica de Hollywood, tendo abordado quase todos os gêneros cinematográficos, colecionando prêmios, aclamação e também aversão da crítica. Lust, Caution foi considerado um estudo soberbo do desejo e da contenção. Bem construído, bem interpretado e dentro de um estilo sóbrio que atribui ao cineasta uma notável marca de autor. No Brasil, a estréia está sendo aguardada com ânsia e curiosidade, ao menos pelos cinéfilos de plantão.

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