Namoro com os EUA: Ang Lee nas filmagens de Brokeback Mountain em 2005

OUTSIDER NA AMÉRICA
Cineasta dos desajustados, Ang Lee retorna ao circuito com filme todo falado em mandarim e, polêmico, com restrições na China e EUA
Por Rafael Dias

Daqui a menos de duas semanas, a China estará sob os holofotes. Com a abertura dos Jogos Olímpicos, no próximo dia 8, a nova superpotência mundial precisará mostrar mais que a pujança da economia socialista de mercado e seus números superlativos. Sede de um evento esportivo de proporção midiática global, terá de se esforçar para cumprir o rigor dos pré-requisitos do comitê olímpico, a despeito dos ataques pelo alto índice de poluição atmosférica e das denúncias de repressão à liberdade de expressão, sobretudo na web, em que é chamada de o grande “firewall”. O seu lado B, que tanto teima em escamotear fazendo a linha “jogo-duro. A mesma faceta que certo cineasta faz questão, volta e meia, de se deter com afinco sem o receio de represálias.


Desejo e Perigo causou comoção quando foi exibido nas mostras do Rio e São Paulo ano passado; filme estréia em agosto

Ang Lee, diretor de origem chinesa, mas radicado nos Estados Unidos, não chega ao ponto do panfletarismo de Michael Moore, que dispara impropérios e casuísmos contra a América de George W. Bush. É verdade também que seu bunker está alojado num ponto seguro. Torna-se fácil desferir críticas e revirar o passado da terra natal a quilômetros de distância, longe de possíveis ameaças que venha sofrer. Independente da base estratégica, é possível enxergar no cinema de Lee, ainda que sua linha seja muito instável e o teor passe quase despercebido, uma coerência anti-establishment. Em seu mais novo filme, Desejo e Perigo (Lust, Caution, 2007), que venceu o Leão de Ouro em Veneza ano passado, ele retorna às suas origens em uma produção polêmica (sofreu restrições nos EUA e foi censurada na China) e totalmente falada em mandarim, como no excelente O Tigre e o Dragão.

O que há de mais singular na obra de Ang Lee não é o tema em si que é tratado. Aliás, sua temática é muito simplória. É a forma pela qual lapida sentimentos universais que suas narrativas ganham um status mais significativo. Amor, relacionamentos e a frustração que nasce a partir dessas duas abstrações irreconciliáveis – linha que se repete em quase todos os seus filmes – já serviram de matéria-prima para outros diretores. Só para citar dois, Ingmar Bergman, com sua lente introspectiva e soturna, e Frederico Fellini, lúbrico e surreal, ambos referências para Ang Lee, como ele sempre declara em entrevistas. Trata-se, praticamente, de um estilo shakespeariano em vasculhar o que há de mais íntimo no ser humano sem se cercar de teorizações e academicismos.


Brokeback Mountain rendeu o Oscar de melhor diretor para Ang Lee

No livro The cinema of Ang Lee: The Other Side of The Screen, lançado no fim do ano passado pela professora nova-iorquina de literatura comparada e estudos do cinema da Universidade de Columbia, Whitney Crothers Dilley, a pesquisadora esmiúça a estética “universal” e “plural” da obra de Lee. À primeira impressão, Dilley constata um aspecto contraditório na filmografia do diretor sino-americano: uma filiação à cartilha hollywoodiana nem tanto à risca assim. Dono de um cinema clássico, cuja construção cênica, estritamente convencional e apurada com luz, fotografia e edição impecáveis, segue o padrão Oscar – ele rejeita happy endings e cenas politicamente corretas. À escola que aderiu desde quando se mudou aos 25 anos para os EUA, onde trabalhara como assistente de câmera de Spike Lee, acrescentou elementos da cultura chinesa, como a melancolia poética e a tradição milenar, e também – talvez o mais importante- sua visão contemporânea de família, sexo e política.

Assim como ele próprio, as personagens de seus filmes refletem uma forma de viver muito parecida com Ang Lee jovem, que emigrou de Taiwan para estudar cinema na Universidade de Illinois e, depois, em Nova Iorque. Saiu de seu país, que estava sob o braço-de-ferro de Mao-Tsé-tung e o “livrinho amarelo” da Revolução Cultural, para tentar a vida na América. Lá se fixou e ganhou cidadania americana, mas nunca deixou de ser um outsider. Um deslocado cultural, sem raízes e parte de uma minoria. Bem como suas personagens, às quais deposita complacência e uma aura melodramática. De Banquete de casamento e Brokeback mountain, sobre amor gay e intolerância, a O Tigre e o dragão e Razão e sensibilidade, que mostram a opressão à figura feminina, Lee se solidariza com as histórias com excesso de candura como um épico romântico. Pela carga dramática exagerada, ele é sempre alvo de críticas. Mas, se comparados a outros romances hollywoodianos, seus filmes são bastante contidos e guardam senso mais realista.


Esmaga: Hulk é a experiência desastrada na filmografia de Ang Lee

É preciso afirmar ainda que a obra de Ang Lee também teve seus momentos menos felizes. A adaptação de Hulk, de 2003, foi uma tentativa desastrada de rumar pelos mares dos hiper-filmes, de efeitos especiais ultra-modernos (mas que, na prática, soaram como chacota, com um monstro verde mal-feito) e estilo cinemão. Pelo que parece, Ang Lee se sente mais à vontade quando forja roteiros mais simples. Mergulhado em romances classudos de Jane Austen e Annie Prouxl, ou mesmo no seu próprio passado, ele faz pequenas fissuras e colhe sentimentos esquecidos pelo exagero de serem o que são. Um cinema comedido no conteúdo, mas audaz e desmedido na forma de ser.


Banquete de Casamento: tema gay sempre foi caro a Ang Lee

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