THE WALKING DEAD E O MITO DOS ZUMBIS
Fim da 2ª temporada da série traz reflexão sobre o mito do zumbi no mundo de hoje: “Não conseguiremos reprimir os mortos sem que eles voltem travestidos com os nossos medos”

Por Danilo Augusto Fraga
Especial para a Revista O Grito!

Na série televisiva de maior sucesso atualmente, The Walking Dead, inspirada no quadrinho homônimo de Robert Kirkmam, o mundo é, repentinamente, acometido por um “apocalipse zumbi”. Como já se tornou costume nas franquias de zumbis, a origem do apocalipse não é explicitada. Entre os poucos minutos iniciais ambientados em um “lugar-comum americano” e um segundo momento de uma realidade apocalíptica que deixa a impressão que toda a humanidade foi tragada pela morte, a guerra entre os vivos e os mortos-vivos se deu longe da tela.

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Interesso-me menos pela narração que acompanha um grupo de indivíduos sobreviventes (um polo focado nos conflitos internos, saturados de clichês na construção das personagens e nas constantes discutições acerca da moral e do que constitui a essência do ser humano) do que na realidade que circunda este grupo, algo que paira ininterruptamente no fora de campo e que sempre acaba por invadir o primeiro ambiente: a multidão de cadáveres que ressurge da morte para se alimentar da carne dos que ainda resistem vivos.

O signo da morte, da morte devoradora, é a maior influência a ser retrada em The Walking Dead. Os mortos-vivos, ou melhor, os zumbis, se tornam o principal personagem na medida em que se tornam inescapáveis para o grupo de sobreviventes a despeito de todo o desesperado esforço que é feito por parte deles.

As constantes cenas de devastação e desolação mostram os sinais de um mundo abandonado. O filósofo francês Michel Onfray disse que os deuses nascem dos olhos mortos e extáticos de um membro da tribo. Olhando para os olhos de um morto não sabíamos dizer como aquilo que ali havia, o brilho, o testemunho da vida, podia desaparecer em uma esfera vazia, então nos consolamos ao pensar que o princípio da vida, a alma, era abrigada em outro lugar, em um lugar melhor. Mas, em The Walking Dead, os mortos se levantam, o princípio da vida presente nos olhos de uma pessoa não desaparece, mas é transformado em seu oposto: fome, destruição, a morte que anda e mata. Talvez seja por isso que um dos aspectos mais significantes de um zumbi- isto é muito característico na série- são os seus olhos. Olhos desfigurados, agora iluminados por um brilho infectado.

Olhos desfigurados por um brilho infectado: o oposto do princípio da vida

The Walking Dead apresenta-nos os sinais não de um mundo sem deus, mas de um mundo, sumariamente, por deus castigado e abandonado a um apocalipse instaurado pela boca dos mortos. O mito do zumbi apresenta a vida e a morte em estados irreconciliáveis. A morte, exilada do âmbito da vida, ressurge como uma inflamação, como um câncer, uma ferida ou tumor purulento que destrói porque seu princípio é de destruição, que se alimenta dos corpos dos vivos porque seu ímpeto é a fome. Uma fome que nasce de um vazio desconhecido, uma fome irracional e sem propósitos, uma fome que não é de alimento, é anti-humana, é o horror como o último testemunho de um julgamento divino ou do caos

Como também é comum para grande parcela das histórias sobre catástrofes e apocalipses, o foco da narrativa vai, em The Walking Dead, progressivamente passando dos aspectos externos para os internos. É no seio das relações das personagens sobreviventes, um grupo liderado pelo ex-subdelegado Rick, que a tensão (e o perigo) se mostrará, cada vez mais, incontornável e alarmante. Divididos, de um lado, pela busca por um norte moral, uma “vida como a de antigamente” e o último resquício de uma humanidade banida e, do outro lado, pela necessidade de sobrevivência, a ação imediata e o julgamento pelo ímpeto o grupo parece ganhar a consciência que nenhuma redenção os aguarda.

É aqui que a narrativa se distancia das demais do gênero. No quadrinho, em um ponto da história um pouco mais avançado do que a série para TV nos deixou, Rick, ao se deparar com mais um situação de desespero e desprovida de norte, declara: “todos nos somos os mortos-vivos”. Mais é ainda no penúltimo capítulo da 2ª temporada, exibido no dia 11, “Better Angels”, que um grande segredo de The Walking Dead é revelado.

Como, mais uma vez, se mostra comum nas tramas sobre zumbis, a série nos mostra, até este momento, que a causa da transformação é alguma contaminação desconhecida, algum vírus transmitido pela mordida, pelo arranhão de um zumbi infectado e que a pessoa, uma vez infectada, morre e ressurge pouco tempo depois como um cadáver autômato. Resta, portanto, a esperança de uma vida “pura” em sua potência, a salvo dos cadáveres infectos, uma vida limpa. Porém, no final de “Better Angels”, a série revela que não é a mordida de um zumbi que contamina a pessoa com o “vírus zumbificante”, mas que todos se encontram, mortos e sobreviventes, já infectados, que não é preciso ser mordido e semidevorado por um zumbi para se transformar em um, mas morrer, simplesmente.

E, talvez, este dado ou “metáfora” sirva-nos, se quisermos, ao indagar as questões: por que zumbis? Qual o significado do ressurgimento do mito do zumbi em nossa sociedade? Certamente, não estamos mais acostumados a elaborar tais pergunta (quanto mais referentes a um produto midiático voltado para o entretenimento. Mas será que este mito- o do zumbi, o do morto vivo- que ressurge em nossos dias, é causa exclusiva de uma questão de marketing e mídia ou podemos usá-lo como ferramenta que nos faz entender melhor nossa sociedade e seus medos?

Creio que o mito dos zumbis se mostra, nesses tempos, muito mais significativos que os repetitivos heróis clássicos de roupa de látex e uma máscara forçada e “forçante” de uma metáfora vazia e ineficiente. E mesmo que o do vampiro, mito tão amplamente utilizado pela literatura, mas que atualmente, parece-me mais uma opção, estritamente, de uma estética fácil e apelo comercial. Talvez o sucesso de séries como The Walking Dead e os mais diversos filmes que surgiram com esta temática, seja devido à queda do apelo dos “vampiros” (jovens, sensuais e apaixonados, sempre) para mídia é a regular sucessão de ferramentas para o angariamento da população mais jovem. Ainda assim, creio se esconder no morto-vivo, no zumbi tão amplamente retratado nas mais diversas culturas uma metáfora reveladora. Mas o quê?

Por que Zumbis?
Nos antigos tempos Atenienses, existia um nefasto período no calendário no qual os mortos eram desenterrados e voltavam a habitar junto com os vivos. Era durante o Apopharades, dias de impureza e infelicidade para os gregos, quando os templos eram fechados e cercados, que os homicídios eram levados a julgamento. E, no interior do templo de Atena, a estátua da deusa, uma vez despida, tinha suas vestes ritualmente lavadas por homens de olhos vendados.

Este era o período em que os mortos voltavam para as suas antigas casas que, agora, estavam ocupadas por outros, os vivos. Então, face a face, morte e vida se encontravam em seu plano mais carnal, mais concreto, a morte do corpo apresentada sem os panos da fábula: a putrefação, o corpo entre a carne e a terra, decomposto, fétido, de olhos ocos. E, por ser tempo de impureza, o Apopharades era também tempo de purificação e expiação. Com o julgamento dos crimes e a lembrança dos mortos, os homens e mulheres expiavam a si mesmos e perdoavam os deuses.

Ainda enterramos nossos mortos, embora o façamos cada vez menos; práticas como a cremação nos livram a memória de um corpo que apodrece no leito da terra e quebra o elo entre morte e corpo, entre a perda da vida e a degradação da carne, mostrando a morte como um fim absoluto e instantâneo ou como transição puramente espiritual. Mas ainda enterramos os nossos mortos e, uma vez enterrados, eles jazem esquecidos sob uma realidade que nega toda a degradação, toda marca e cheiro do tempo que passa nos corpos vivos. Como o inconsciente, nossos mortos se ocultam nas camadas mais profundas da nossa realidade.

Nossa sociedade nega tudo o que é morte e tudo o que é velho. Sob uma ordem de eterna juventude, de uma juventude estendida por todas as idades humanas, nós não cultuamos mais nossos antepassados, nem honramos a velhice. Ainda no corpo vivo, a velhice é evitada a todo custo e terror. Desejamos corpos lisos, esticados, imaculados. As estrias e a veias que saltam roxas, a carne flácida e opaca, as marcas de um corpo que adentra progressivamente no reino do inanimado e do vegetal são sinais, em nossos dias plásticos, da mais profunda degradação, da degenerescência não só do corpo individual, mas da própria sociedade.

A morte foi, progressivamente, exilada da consciência do homem moderno, passando a existir somente como catástrofe nas estáticas ou noticiários ou como o reino do horrível, dos rancores acumulados, dos monstros e fantasmas. Não é nenhuma novidade dizer que vivemos como se nunca fôssemos morrer, porém apesar da verdade de tal afirmação, esta posição não se sustenta sem certa dose de esquizofrenia, sem os impulsos que escapam, transfigurados, das camadas de terra.

“O homem é um cadáver adiado”, uma vez disse Pessoa, e é na convergência dessa inescapável afirmação com a consciência de uma morte desvalorizada e reprimida que nossos mitos são resignificados e que motivos uma vez rasos e inexpressíveis, como o do morto-vivo, o do zumbi, ganham peso, significância e posição de grande metáfora para a situação da morte na contemporaneidade.

Em The Walking Dead, a morte é a infecção, um parasita que se instala e devora a vida e um zumbi é, em primeiro lugar, um cadáver, horrendo porque em decomposição; o zumbi é a nossa visão da morte desnudada. A boca de um zumbi é a boca da morte, o horror de ser devorado por um cadáver é o horror do corpo que se degenera ainda em vida, é quando a morte atravessa a vida e é simultânea a vida, quando ela atravessa todo o ocultamento ao qual se encontra submetida e se faz ver.

Não conseguiremos reprimir os mortos sem que eles voltem travestidos com os nossos medos. Uma vida que aponta somente para a vida e a juventude é uma vida pela metade, uma vida que não se faz conhecer.

O ser humano se obriga a encarar os seus maiores temores. Vivemos em tempos de pouca consciência e coragem, mas isso ainda não nos impediu de criar metáforas desveladoras que, mesmo quando inconscientes, nos mostram aquilo que foi posto embaixo do tapete. Mas ainda é preciso aprender a ler os mitos que nascem dos anseios mais reprimidos de nossa sociedade, ao risco da contínua ignorância.

O que se encontra de mais significativo em “The Walking Dead” não é a originalidade de sua construção, nem alguma sabedoria individual escondida em seu enredo, mas é justamente aquilo que a sociedade anseia por consumir, é o mito que ganha significância porque não é autoral, se constrói de forma difusa, até passar a representar muito mais do que estamos acostumados a ler em um produto midiático.

Também os mitos não estão mortos.

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Danilo Augusto é bacharel em Humanidades e graduando em letras pela UFBA

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