GARRAFAS E CORAÇÕES PARTIDOS

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Não antes de uma dose: Amy diz que não é lésbica. Pelo menos não antes da primeira lapada.

AMY WINEHOUSE
Back To Black
[Virgin, 2007]

Amy Winehouse - Back To BlackA música pop ainda tem espaço para uma dama chorando suas desventuras amorosas? Bem, espaço pode ser forjado, seja no surgimento de mídias muito bem sacadas para divulgação (caso do MySpace, sempre ele!) ou na aposta acertadíssima de uma major,vez ou outra. O nome é Amy Winehouse. E o “dama” é em gratidão pelo som poderoso que ela trás com sua voz puro Motown, já que de certinha ela não tem nada. Foi a Virgin que assinou com a mais negra, no sentido original do termo, das branquelas cantoras de soul. Com apenas 23 e no seu segundo trabalho, Back to Black, Amy poderia apenas emular as divas do passado ou seguir o filão de Joss Stone e companhia, sendo bem sucedida. Porém, a autenticidade das suas letras imprime mais valor às músicas. Os temas vão desde alcoolismo aos percalços amorosos dessa inglesa, que se mete em confusão pra em seguida se redimir bravamente com alguns dos versos mais inspirados dos últimos tempos, como no hit “Rehab”, em que ela ironiza sua inaptidão para dar os 12 passos. A cantora já tinha lançado Frank em 2003, um disco bem mais pop com características fortes de jazz, que apesar de ser indicado ao Brit Awards como melhor álbum solo feminino estranhamente não estourou.

Amy tem influências musicais na família, e sua primeira experiência foi montar uma banda de rap aos 10 anos, chamado Sweet’n’Sour (da qual foi expulsa por não se dedicar e ter colocado um piercing no nariz). A rebelde garota judia ganhou sua primeira guitarra aos treze anos e aos dezesseis teve sua demo descoberta pelo cantor Tyler James, assinando em seguida com a Universal. Em “My Tears Dry on Their Own” e “Wake Up Alone” ela enumera as tristezas de quem vive um frustrado relacionamento aberto. Nessa última: “Tà tudo certo/ Me ocupo durante o dia/ Compromissada com o amor/ Não preciso/ Me preocupar onde ele está/ Cansei de chorar/ Ultimamente quando me pego assim/ Eu viro o jogo/ Fico de pé/ Limpo a casa/ Pelo menos não estou bebendo“. São estrofes que dão o tom das composições que poderiam muito bem ter saído de um álbum de Aretha Franklin nos anos 1960. Em “He Can Only Hold Her”, a mulher sexualmente livre confessa que “O homem com quem ela quer estar / Agora, como ele pode ter seu coração / Quando ele lhe foi roubado“.

Vítima constante dos tablóides ingleses ávidos por personalidades que vivem no limite, Amy viu sua vida ser devastada a partir do aparecimento de uma anorexia, que a fez perder peso consideravelmente. Aos que especulavam ser isso uma reação à cobrança pela imagem, ela respondeu que não obedece à esses apelos externos, e sim à sua criança interior. Seu barraco com Bono Vox nos bastidores de um programa de auditório já é tão lendário quanto suas fotos e aparições públicas, trôpega ou vomitando no palco. Isso te lembra alguém? Em entrevista recente a revista Elle, um jornalista percebeu em seus braços arranhões e cortes, o que alimentou rumores sobre uma queda que ela teria levado no meio da rua, em Nova York.

Nos seus planos está a trilha sonora do próximo filme 007, além de um dueto com Sir Mick Jagger no Festival da Ilha Wight. Mesmo recebendo mais atenção pelos excessos etílicos do que por seus dotes musicais, Amy não passará rápido com uma manchete de tablóide, é o que fica depois de escutá-la demoradamente. [Rafaella Soares]

NOTA: 10

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