RISE AND FALL DA ANTI-DIVA
Amy retribui público caloroso com sua melhor performance no Brasil

Por Rafaella Soares
Da Revista O Grito!, no Recife

Noite de quinta-feira(13), Centro de Convenções (Olinda) lotado. Modernos, reticentes, fãs, lançaram mão de delineadores e tubinhos e arvoraram-se para um dos shows mais concorridos nos últimos tempos. Recife foi a terceira cidade a receber o show da diva Amy Winehouse em solo brasileiro, dentro do Recife Summer Soul Festival, depois das apresentações em Florianópolis, no último sábado (8), e no Rio de Janeiro, na segunda (10) e na terça (11). Ela encerra sua passagem pelo país no sábado (15), com show em São Paulo, na Arena Anhembi.

E ao contrário do que alimentava a expectativa de grande parte do público presente (ou na órbita do evento – principalmente nas redes sociais), Amy fez o show mais longo, se não o mais caloroso e desencanado, que nossos conterrâneos viram até agora. O que significa, necessariamente, polêmica do mesmo jeito, considerando que os que apenas torciam para assistir uma performance histórica não superavam em número e força de vontade os que foram testemunhar uma zica catastrófica.

Em se tratando de Amy, não sabemos onde termina o exagero da cobrança por um show impecável (estamos falando da mesma estrela?!) e onde começa a condescendência dos fãs.

Indiferente aos boatos, agouros e apetites salivares de abutres, Amy entrou no palco, com seu andarzinho trôpego (é charme ou involuntário? E pode dizer isso sem acrescentar que não aprovamos seu estilo de vida, mas faz parte dela, como as tatuagens no corpo?), um tanto tímida, metida num vestido colado, e mandou o medley Shimmy Shimmy Ko Ko Bop com Just Friends.

Euforia. Era como se a massa formada pelo público finalmente se tornasse homogênea, num suspiro de alívio depois do “Round one: fight!”. Mas ainda se faltava chão para quem pagou entre R$150,00 e R$200,00 (pista) e R$300,00 (frontstage) dizer que estava satisfeito.

O show da inglesa começou uma sucessão de hits e músicas infalíveis do repertório, como “Rehab”, “I heard love is blind”, “You wondering now”, “Some Unholy War”, “Love is a Losing Game”, “Boulevard of Broken Dreams”, “Tears Dry on Their Own”, “You Know i’m Not Good”. Todas entrecortadas por paradas e idas aos bastidores. A cada retorno ao palco, Amy era ovacionada. O bis com “Valerie” foi sensacional, e inesperado.

Durante todo esta sexta-feira, sucederam mensagem lamentando a ida ao show (“que sacrifício!”), debatendo o signo e o significado de Amy e seus desdobramentos, etc, etc. Ao que acertadamente comentaram: “Pelo que entendi, Amy Winehouse não tem plateia, tem banca examinadora”

É válida a discussão de pontos de vista distintos, especialmente quando gira em torno de arte, música. Talvez também seja cabível defender que repetir “‘o show de Amy foi “aquém”, “decepcionante”, “curto”, “burocrático” ou qualquer outro adjetivo reducionista não fomenta nem a ideia de senso crítico apurado de quem emite tal opinião, nem corrobora com uma postura mais exigente e menos tiete na hora de avaliar a apresentação.

A música dessa mulher é estimulante, poderosa, sua voz impressionante. A aparição de sua persona foi um sopro renovador em décadas de música, e oferece mais material de debate do que toda a tinta de tablóide inglês que já tenha dissertado sobre ela (em tudo o que isso implica: pequenas falhas, tropeços: características humanas).

E que bom que fizeram a escola da dor Billie Holiday, Chet Baker, Johnny Cash, Jim Morrison, Mick Jagger, Etta James, Janis Joplin, tantos outros. Egoísmo e ganho nosso. Quando Amy canta em “Wake up Alone”: “Cause this ache in my chest…”, como para escancarar sua verdade, e para falar de dor com propriedade, infelizmente, faz-se com maestria vivenciando um caminho errante. Ainda que seja business também.

Quem quer academia, deve saber, não vai encontrar em Amy postura impecável, certinha, anódina. E que bom. A ideia de vigor no palco se assemelha a um vídeo antigo de Joe Cocker. Pra provocar catarse em quem sente o mesmo, e fazer despertar para a natureza humana quem fica à margem da subjetividade e não mergulha – ou dá um gole – nela.

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