PRINCESA REBELDE: AMSTERDAM
Por Joana Coccarelli, especial para O Grito!

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Da primeira vez, ficou o suntuoso saguão do Hotel Victoria, em contraste com o quarto coberto de afrescos psicodélicos berrantes. Pela janela, o rodelão da lua refletindo num canal fronteiriço com o Red Light District e, minutos depois, assim que dobramos a primeira esquina, um homem de casaco de couro nos oferecia discretamente qualquer tipo de droga. Caminhamos, eu e papai, como clandestinos pelas ruelas repletas de vitrines iluminadas com neon vermelho, roxo e pink, observando elegantemente as putas de etnias variadas, uma dançando em espartilho, meias e ligas brancas, outra tediosamente sentada – vestia camiseta “Brasil”, cheia de araras – bebendo café.

Essa foi a primeira vez. Dia seguinte, na estrada, vimos nascer um sol análogo à lua da véspera, e muitos moinhos pelo caminho. Eu tinha tenros doze aninhos.

Dezoito anos depois, há menos de seis meses, perambulo com minhas duas hostesses por Amsterdam. É um deslumbre estonteante, embalado por deprimentes comparações com a realidade nacional. Você quer se mudar para lá. Aceita emprego de engraxate e pensa em virar hippie. Porque ali subcultura é parte da cultura dominante: historicamente, a Holanda dos contos de fada absorve, civilizadamente, os costumes ditos desviantes, tal como aconteceu nos anos 1960 através da legalização da prostituição, do relaxamento das políticas antidrogas, do apoio ecológico às bicicletas como alternativa aos automóveis e, mais recentemente, da legalização do casamento gay. Isto, em si, já ejeta nossos parâmetros para Urano, onde apenas a Suíça consegue chegar num distante segundo lugar. O resto do mundo ainda rola à milanesa no esgoto hipócrita da guerra contra o tráfico, na supressão do sexo à venda e na homofobia arcaica.

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Hash Museum: até os holandeses mais conservadores se convencem de que bagulho não é o anticristo

Suas sinapses já estão em curto, mas foda-se, você topa um coffee-shop. Faremos o percurso andando porque a cidade é pequena e viajante tem mais é que bater perna para ter certeza do que está vendo. O que é sempre um desafio: o fim da tarde é laranja como a monarquia dos Orange que ainda representa o país, como sua seleção de jogadores de futebol, como os cabelos de tantos nativos que cruzam ciclovias com buquês de flores na cestinha. Existe aquela perfeição generalizada que inclui até os recônditos mais errantes. Amsterdam beira a inverdade.

Coffee-shops não se restringem ao Red Light District, notório bairrinho hardcore. O primeiro onde entramos ficava numa avenida “de família”, para quem se importa com isso. Então você chega ao bar, abre o cardápio e encontra variantes fumáveis ou comestíveis da forma e espécie de planta que quer. Vale pedir orientações pro barman. Você paga na hora, ele lhe entrega um saquinho plástico com a prenda e você compra um suco, já que ali álcool é proibido. Saca umas sedas de dispositivos semelhantes aos de guardanapo e vai se servir sentado num banquinho ou numa mesa. Ninguém circula pelo ambiente, não há chance para escarcéu: a atmosfera é chapante e os freqüentadores querem assim.

O cérebro nas alturas nos levou, muito apropriadamente, ao Museu Van Gogh – se for numa sexta-feira, ainda melhor, pois nesse dia da semana o acervo fica aberto até 10 da noite. Coincidência ou não, havia um DJ e um VJ em ação no pátio do museu, repleto daquelas pessoas bonecos de porcelana, lindas e movimentadas. Ainda assim não é fácil permanecer na social for so long: acima, há andares de amplos salões com diversos desbundes do ás do pós-impressionismo, pinceladas derretidas de cores absurdas e linhas que remontam a vapor saindo da terra, vento cósmico ou correnteza.

Para chegar ao Van Gogh é preciso atravessar – ou contornar, se já for noite – o Wondelpark, um idílio vegetal onde o povo passeia, corre, anda de bike e, nos idos anos 1970, era camping da juventude nômade da época. Ao redor, as casas mais charmosas da cidade, com janelões tão grandes e tão baixos que dá pra espionar a sala, do chão até o teto. Uma excitação voyeur para a vida doméstica local.

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Existe aquela eletricidade fresca de se estar onde quase tudo é permitido

Compritchas descolex é no Waterlooplatz, o melhor mercado das pulgas do mundo. Lá é possível escavar chapéus tipo Raíssa Gorbatchev, turbantes de lã preto estilo Eartha Kitt, antiquários para a casa, casacos semi-teatrais, calças xadrezes, acessórios dramáticos e muito mais. É vintage na raíz, saído do velho baú da casa de alguém. Os vendedores estão sempre prontos para acertar pechinchas, prática que me ajudou a negociar uma saia do Rajastão junto a um clone de Janis Joplin, cabelos em chamas, o redondo universal daqueles óculos, vestida à caráter.

Waterlooplatz fica no meio do já mencionado Red Light District; na real o bairro é muito tranqüilo de visitar durante o dia, famílias inteiras de holandeses rosados passam por ali. Existe aquela eletricidade fresca de se estar onde quase tudo é permitido. As vitrines normalmente se concentram em ruelas menos visadas, mas vale a pena passar e dar um confere nas meninas (só não vale fotografar). Há cogumelos vendidos no fundo de lojinhas de bonés e o adorável…

Hash Museum, onde realizei meu manifesto legalize em clip de máquina fotográfica. A entrada é repleta de verdejantes vasos de cannabis e a recepcionista sorridente informa que fotos estão liberadas. E eis todos os argumentos pelos quais até os holandeses mais conservadores se convencem de que bagulho não é o anticristo. O espaço é limitado, mas cabem boas amostras religiosas, econômicas, culturais e botânicas da plantinha e seus derivados. Numa das salas fica o animado grow-room da Sensi Seeds, marca clássica de semente de maconha: uma estufa indoor com temperatura e iluminação controladas, premiada com diversos tufos satisfeitos.

Antes de continuar descobrindo os sem-número de fábulas amsterdâmicas, dê um pulinho na praça Spui (pronuncia-se “spáu”). Não passa de uns bares com a estátua de um moleque na frente. Aquilo ali é história. A Hunter Tobacco Company presenteou a escultura à cidade, e foi lá que, no comecinho dos anos 1960, teve início o antimovimento anarquista Provo – primeiro com apoteóticas manifestações anticigarro, seguido do plano das bicicletas brancas (anticarro, ecológico), plano das mulheres brancas (feminista), do Marihu Project (legalização), primeiras manifestações mundiais contra a guerra do Vietnam e, finalmente, elegendo um vereador, que só andava descalço e arrotava antes de falar à câmera.

Inglaterra? França? Japão? Estados Unidos? A Holanda viu, e ainda vê, tudo primeiro.

Joana Coccarelli é jornalista, autora do blog Narguee-la e idealizadora do projeto de artes Coccarelli.art.

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