Longa de Tuca Siqueira retrata uma paixão que nem a ditadura conseguiu dizimar e uma verdade exilada que o tempo trata de resgatar

Nossa memória é um moodboard de polaroids esmaecidos pregados em cortiça na cabeça, que se confundem com álbuns de fotografia em tons sépia, fragmentos do que foi vivido ao longo da vida e frames idílicos do que nunca vivemos. É no refúgio desses últimos, inclusive, que estão algumas das reservas mais caras do ser humano: o impulso de resgatar a felicidade do primeiro amor ou as paixões da juventude. Porque o tempo beneficia com tons mais amenos o que ficou para trás sem ter sido experimentado em plenitude.

Essa é uma experiência sensorial vívida quando nos deparamos com as cenas iniciais de Amores de Chumbo, de Tuca Siqueira. No que parece ser um apartamento amplo situado na Zona Norte do Recife, nos deparamos com o aniversário de casamento dos protagonistas Miguel (Aderbal Freire Filho) e Lúcia (Augusta Ferraz) nos dias atuais. Curioso notar que elas em muito lembram as cenas no apartamento da família da personagem Clara (Sônia Braga), em Aquarius (Kleber Mendonça Filho, 2016), que por sua vez nos remetem às cenas de festa de família na casa do tio Anco (Lula Terra) em O Som Ao Redor (Kleber Mendonça Filho, 2013).

Essas casas são mais do que o lugar onde vivem os personagens, são parte de suas construções e guardam na sua alvenaria segredos sedimentados pelo tempo. Para além do gancho político, o filme entra em muitas camadas de subjetividades sobre como, na condição humana, estamos irremediável e permanentemente ligados: a alguns, aderidos fisicamente pelo hábito. A outros, atados pela melancolia.

A comparação entre as casas recifenses que a tudo assistem, desde o sexo maduro regado a vinho do casal revolucionário até uma fogueira improvisada na mesa de jantar arder com segredos empoeirados, também é para mencionar o barato que dá ao público pernambucano. Se reconhecer entre lugares do nosso repertório emocional provoca uma catarse bonita. Seja por meio de azulejos geométricos de uma cozinha antiga mantidos num apartamento em Casa Forte nos anos de 2010, ou a escada de cimento granito num apartamento do Pina na década de 1970 ou os muros baixos de uma casa modernista de Setúbal, ou a antiga cela de presos políticos revertida em museu que vende artesanato.

E contar histórias pernambucanas com nosso sotaque, nossos atores e uma direção de arte que emula casas que fazem parte de nossas vidas já é começar fazendo o trabalho com um apuro importante. Trazer a narrativa de personagem que viveram a ditadura para fora de gravações em ruas cariocas e colocá-los no Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFPE ou na Casa da Cultura, merece outro viva.

O triângulo amoroso entre os três personagens centrais de Amores de Chumbo remonta uma dinâmica clássica e atemporal: duas amigas, apaixonadas por um mesmo homem, tendo como cenário os anos brutais da Ditadura Brasileira, e todos os desencontros e lacunas de comunicação que uma era analógica poderia proporcionar.

Ideologia, ciúme e egoísmo conduzem a vida dos três por caminhos inerentes à suas escolhas, para anos depois, uma reviravolta mostrar que sentimentos não esmaecem como documentos engavetados e a ideia constante daquela outra vida que poderíamos ter vivido nunca deixa de nos acompanhar. Hoy es Hoy, ayer se fue, no Hay duda! A citação a Neruda feita pelo filho do casal protagonista a certa altura, põe para pensar: seriam as relações humanas tão pragmáticas assim, como um experimento que ele testa no expediente em uma empresa de tecnologia?

No fim, o cotidiano, esse que marca com vincos os rostos e mantém unidos na mesma cama por décadas corpos magnetizados pela solidariedade do que viveram juntos, ainda pesa sua mão forte em nossas decisões. Bem mais do que a possibilidade de viver o inefável.

Sem mais artigos