NA VELOCIDADE DO BICHO PREGUIÇA
Amantes Constantes reverbera, a todo momento, a beleza fílmica ao espectador, mas não empolga devido ao excesso de lentidão e morosidade
Por Fernando de Albuquerque

Alguns filmes precisam ser vistos, mesmo que não sejam bons e principalmente se forem uma obra prima. E é nessa segunda categoria que se enquadra Amantes Constantes, filme de Philippe Garrel. O primeiro motivo para assisti-lo é o registro historio (e bem sensível) que faz na revolução de 1968 fazendo o espectador sentir na pele o que ela significou. Se convertendo numa combinação de realismo, subjetivismo, experimentalismo e hiato, tanto visual, quanto sonoro. Esses fatores fazem a película ir completamente de encontro à felicidade rósea tão apregoada pelos Os Sonhadores(2003). Finalmente, pode-se afirmar, com rara veracidade, o reducionismo preguiço e mainstream que é o filme de Bertolucci.

A projeção tem um nítido tom autobiográfico, já que mimetiza a estética da Nouvelle Vague, com uma montagem mais livre e enquadramentos mais vanguardistas para mergulhar o espectador no que teria sido viver aquele clima, em um momento tão particular daquela juventude que queria, de verdade, mudar o mundo. Amantes Constantes para assumir essa função de retratar um Garrel bem francês lança mão de um registro histórico meio impressionista com um tom bem íntimo.

As horas de duração, ao mesmo tempo em que permitem um deleite visual inigualável, leva a platéia a se contorcer na cadeira. Esse é o único pecado de Amantes Constantes. São três longas horas que fazem o mais cult dos espectadores se sentir um tanto incomodado com os longos espaços sem diálogo em seqüências memoráveis como a das barricadas na Champs Elisé contra soldados do governo francês. Com direito à carros virados, todos em chama, coquetéis molotov e mais uma série de arroubos típico de mobilizações desse gênero.

O filme nos destrincha as mudanças, sempre constantes, do casal François (Louis Garrel) e sua namorada (Clotilde Hesme). Registrando sempre a destruição de cada esperança que sustenta a vida dos dois: a revolução (sem negar toda a brincadeira-de-burguês que há nela), o círculo de amizades, a poesia e mesmo o amor. Essas sensações transmitidas com maestria às telas por Philippe Garrel dão a entender que o material fílmico vai arrebentar a qualquer momento. O romance dos dois é um exemplo de respeito, sinceridade e ocultação do sexo. A paixão mais eloqüente que se vê na tela é a da câmera por Clotilde, maravilhosa atriz que justifica cada minuto de closes intensos.

De outras coisas, porém, não resta dúvidas: Amantes Constantes é um filme de exceção, de um cineasta que é um sussurro muito silencioso no Brasil. Vencedor do prêmio de melhor direção em Veneza 2005 e do César de melhor fotografia e melhor ator-promessa este é um ótimo momento para conhecer o radical Garrel, que combina com muita maestria o intimismo mais envolvente com o artificialismo mais incômodo. Boa parte do encanto proporcionado vem, contudo, da fotografia de William Lubtchansky, que nos faz lembrar muito mais a estética dos filmes do leste europeu na década de 60 do que propriamente a Nouvelle Vague.

Mas nem a poética de Garrel, nem a luz de Lubtchansky, nem mesmo o carisma dos atores justifica o tempo de duração. Por mais que se baseie no tempo psicológico, o filme ganharia em beleza se perdesse alguns alongamentos que são puro narcisismo e “punheta” intelectual. Para aqueles não muito familiarizados com o idioma francês, a experiência ganha uma circunstância agravante nas legendas brancas projetadas sobre fundo branco. Com isso a distribuidora Imovision acaba de lançar as nossas primeiras “legendas de época”, afinal, tudo era assim nos longínquos anos de 68.

AMANTES COSTANTES
Philip Garrel
[França, 2005]

NOTA: 7,0

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