RELEMBRANDO A BOA LITERATURA
Relançado pela editora Perspectiva, Almas Mortas ganha tradução de qualidade unânime e edição bem cuidada
Por Fernando de Albuquerque

A essa altura do campeonato, com um escritor bem sucedido à cada esquina, parar tudo para falar de Nikolai Gogol parece surreal. Mas não é. O escritor é um marco na literatura mundial e deveria se tornar leitura obrigatória no ensino médio já que a púbere enlouquecida sairia da escola com a mente muito mais recheada com Gogol do que com A Senhora. A nova edição conta com perfeita tradução de Tatiana Belinky, que consegue reproduzir com muita destreza o ritmo da narrativa, o cinismo e ironia contida nas passagens direcionadas ao leitor.

Nesse livro, primeira e única parte publicada de uma trilogia sobre a Rússia, é criada uma galeria magistral de personagens ao retratar tipos humanos. A história se passa em uma cidadezinha provinciana, intitulada Tchítchikov, que negocia com senhores feudais a compra de servos que já morreram. Daí o título do livro que guarda em si, incorruptivelmente, uma sabedoria dourada que torna-se amplamente necessária sorvermos em meio a uma época de imediatismos e facilitismos sem sentido.

E com Gogol nos sentimos o rei e não é preciso fazer uma viagem de sonho ou ter uma casa chique, basta lê-lo para experimentar o mais refinado tipo de humor alguma vez igualado ou sequer imitável. Sim, por que ele é dono de um humor tão sutil e ao mesmo tempo tão sarcástico e polido que deixa o leitor completamente indefeso. Tudo isso perante a própria cretinice da raça humana permeada por olhos que não deixa ninguém incólume: provincianos, imbecis. Inteligentes, burros ou puros malandros. Todos são motivo para crítica que se torna saudável e extremamente prazerosa.

Almas Mortas resulta então de uma visão violentamente satírica do autor sobre a Rússia anterior à abolição da escravatura. E pena que só restou um volume já que Gogol queimou os outros dois, dos quais se salvaram apenas meros fragmentos. E para escrever apenas quatro capítulos, por exemplo, ele demorou cerca de 10 anos.

Do autor – As obras de Gógol são consideradas textos complexos que, muitas vezes, desafiam interpretações convencionais. Para quem não precisa se preocupar em tecer críticas literárias nem definir se ele foi o pai do modernismo russo ou apenas um escritor com uma vida extremamente atribulada, Almas Mortas é uma excelente maneira de fazer uma viagem por lugares exteriores e interiores.

Ele foi a primeira grande figura do realismo russo. Começa por escrever contos: “Serões na Propriedade de Dikanka”, “Arabescos”, “O Retrato”, “Diário de Um Louco”… Publica um importante romance romântico, Taras Bulba, que descreve as lutas dos Cossacos contra os ocupantes polacos. Mas não demora a inclinar-se para as propostas literárias do realismo. Sendo acusado de Czarista confesso passa três anos vagueando à esmo na Europa onde queima os textos e prepara um volume intitulado Trechos Escolhidos da Correspondência com os Amigos. A inquietude e a insatisfação empurram-no para uma adesão fervente à fé cristã; o conflito da sua consciência com a atividade de escritor se torna insustentável. Após uma viagem à Terra Santa, uma crise mística domina-o nos últimos anos da sua vida.

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