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O HEDONISMO DE UMA DÉCADA
A década do boom da internet, do pagode bombando, de Quentin Tarantino a mil e da TV Colosso renasce como a grande festa que deu carga ao novo século
Por Fernando de Albuquerque

ALMANAQUE ANOS 90
Sílvio Essinger
[Editora Agir, 2008]

A década de noventa começou embalada pela queda do Muro de Berlim, pelas mudanças de uma constituição recém escrita e pelos presidentes, agora, eleitos de forma popular faziam pelo pais afora. E nesse quinhão do mundo – que começava a descobrir a democracia e era a esperança de futuro – toda cantora queria ser tão eclética como Marisa Monte (que ia do axé mais ralo à interpretações obtusas e poéticas de Chico), todo jogador queria ter o sucesso de Romário, todo menino queria ser Bart Simpson, todo cineasta queria ser tão descolê quanto Tarantino e assim por diante. Se formos fazer um comparativo, as decalcadas linhas da cultura pop dos anos 90 – do esporte à televisão – fizeram as bases do século que viria pela frente. Essa e mais uma miríade de ícones compõem as páginas do sortido álbum Almanaque Anos 90. Uma leitura imperdível de quem viveu essa época.

A organização do carioca e jornalista Sílvio Essinger garantiu que o melhor dessa década de ebulições fossem resgatadas em páginas que nos fazem lembrar do surgimento da internet, dos telefones celulares e os grandes avanços em telecomunicações. O cardápio dos canais por assinatura, por exemplo, mudaram por completo a vida dos brasileiros mais abastados. Nessa mesma montanha-russa, a indústria fonográfica via o falecimento do LP, hoje alçado à categoria de arte, o surgimento do MP3 e a revolução que esse tipo de arquivo fez na vida de todo cantor. E foi uma série de gírias e inovações tecnológicas que fizeram esses anos correrem como loucos, transformando a vida dos brasileiros e à toda fervência dos anos 80 foi adicionado novas cores fazendo com que, já em 99, quem era ídolo no começo dos 90 se tornasse peça de antiquário ou ganhasse ares de retrô.

O axé music e o pagode são a principal bandeira dessa época. Fica difícil não se lembrar que foi o E O Tchan! que deu partida às letras e coreografias safadas que invadiram a televisão da época. E o grupo fez com que marmanjos voltassem a fazer sexo e os adolescentes punhetassem incontáveis vezes vendo Faustão ou mesmo Gugu, a garota com camiseta molhada e sua banheira repleta de closes no mijador protuberante. O pagode romântico ressurgiu em letras melosas que cantavam uma ode a mulher amada reacendendo também o brega que, hoje, tem ganhado roupagem de cult para sobreviver. E acomapnhando essa tendência quem não se lembra da Banda Eva, de Netinho, do Olodum, de Daniela Mercury e seus compatriotas? Difícil esquecer do “a cor dessa cidade sou eeeeeeeeeeuuuuuuu/ o canto dessa cidade é meeeeeeeeeeeeeeu/ uôôôô, verdadeiro amooooooooo/você vai onde eu vou”.

O livro se divide em sete capitulos que falam de curiosidades sobre a música, televisão, cinema, mídia, tecnologia, comportamento e esportes. Os que estão na faixa dos 25 lembram ainda com mais força a invasão dos vídeogames como o Master Sistem e o Playstation. Lembram dos bichinhos da Parmalat e a crise do leite que se seguiu, de novelas mexicanas como Carrossel e de VJs como Gastão Moreira (suspiro!), de uma MTV recém-nascida.

Os anos 90 foram irônicos. Todos riram de si mesmo e tudo virou uma geléia de sabores e cores. Todos curtiram. E a passagem do século foi com a forte ressaca iniciada com o 11 de setembro em 2001. Seguiram-se aos eventos novaiorquinos duas guerras, escândalos políticos de corrupção e o boom das celebrities. É esperar os resultados, nos próximos 10 anos, dessa era marcada pelo Ipod.

Coisas dos anos 90

A Novela Mexicana

O Dono o Mundo e Pátria Minha bombavam na Tv Globo mesclando políticagem e melodrama. Já o SBT investia pesado na parceria com redes mexicanas e hispânicas. Carrossel, por exemplo, chegou às telas nacionais perturbando o Jornal Nacional e foi seguido, com pleno sucesso, por Maria do Bairro, A Usurpadora e Marimar.

Quentin Tarantino

Ele era ex-balconista de locadora e se tornou um frenesi que tomou conta, quase por completo, do cinema. Seus filmes repletos de sangue, risos e doses maciças de sarcarmos fizeram esse norte-americano lotar sessões com filmes como Pulp Fiction e Cães de Alguel.
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MP3

O CD tinha acabado com o LP e transubstânciava em si mesmo o próprio futuro da música. Mas com o crescimento da internet surgiu o MP3 e é o CD quem está ameaçado. Nos primeiros cinco anos surgiram os sistemas de compactação de arquivos, os zips, que facilitaram a troca de músicas e álbuns inteiros. Até hoje as gravadoras não conseguiram se recuperar.

É o Tchan!

O grupo era capitaneado por Compadre Washington e tinha em Carla Perez o máximo ícone da mulher delícia. Eles nunca andaram ao lado da complexidade, pelo contrário, em letras chiclete e de pouco uso da inteligência venderam cifras astronômicas, reacenderam a chama do axé music e deram partida às baixarias nas rádios.

O Mangue Beat

Chico Sciense e Fred 04 começaram essa embolada que fez um dos movimentos mais punjantes dos últimos anos em Pernambuco. Se utilizando de fusões do hip-hop com cultura popular e até mesmo forró com hardcore deram partida ao liquidificador cultural que hoje permite tudo.
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Barrados no Baile

Enganam-se os que pensam que a dominação das minisséries americanas começaram com Lost. Barrados no Baile deu partida a essa colonização que foi seguida por Plantão Médico e Arquivo X. Ambas tinham espaço cativo no horário nobre de canais abertos.
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Roberto Baggio

Em 93 ele foi eleito como o melhor jogador pela Fifa. E ficou muito mais lembrado por ter perdido o pênalti que levou o Brasil a se tornar Tetracampeão Mundial. Ah, ele usava um rabinho de cavalo arrazante.

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