Foto: Divulgação/Cia Das Letras.

Foto: Divulgação/Cia Das Letras.

A CULPA É DA MÃE
Em sua nova HQ, a quadrinista chega às raízes da delicada relação entre ela e sua mãe – e cria uma obra bela, forte e, acima de tudo, sincera

Por Dandara Palankof

A quadrinista Alison Bechdel ficou conhecida pela maioria dos leitores brasileiros em 2007, quando foi lançada por aqui a versão em português de sua graphic novel Fun Home. A história, autobiográfica, contava a experiência da autora em crescer em uma casa dominada pelo comportamento bipolar de seu pai; administrador da funerária herdada de sua família e que, Bechdel viria a saber depois, reprimia sua homossexualidade desde a juventude.

A autora Alison Bechdel: terapia em HQ (Foto: Elena Seibert/Divulgação)

A autora Alison Bechdel: terapia em HQ (Foto: Elena Seibert/Divulgação)

O livro apresentava não só os resultados do comportamento errático do pai da autora sobre a família e, principalmente, sobre ela mesma – inclusive no que tange ao descobrimento de sua própria (homo)sexualidade. foi também uma tentativa de entender a figura humana de seu pai e de compreender a dimensão de suas frustrações e sofrimentos, que viriam a levar-lhe a um final trágico.

Apesar de narrado em primeira pessoa e acompanharmos diretamente as experiências e as percepções de Alison, o livro realmente tem mais peso na figura de seu pai. Não poderia ser diferente, dada a excentricidade desse personagem. Mesmo que o foco não seja a vida de seu pai em si, mas o quanto sua decisão equivocada de tentar se adaptar aos padrões de uma família considerada “normal” afetou negativamente a vida daqueles ao seu redor, é impossível não perceber o quanto sua tortura autoimposta resultava em idiossincrasias surpreendentes – e, assim, ele acaba por roubar a cena. Não é o que acontece em seu novo livro.

Em Você É Minha Mãe?, Bechdel continua a dissecar suas relações familiares. Dessa vez, o alvo é sua mãe, cuja distância – emocional e até física – imposta por ela ainda durante sua infância, lhe trouxe as questões que ela se propõe a analisar na obra.

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“Análise”, aliás, é um dos termos mais apropriados para se falar do livro: Alison parte de seu próprio processo de terapia para construí-lo. É a partir de suas experiências com as duas psicólogas que consultou (de forma longeva) nos últimos anos, de seus próprios estudos sobre a psicanálise e a compreensão que passa a ter de si mesma, que a autora finalmente consegue escancarar não só sua intimidade, como sua própria psique. Assim, consegue trilhar inteiramente o caminho que apenas tangenciou em Fun Home e ser, enfim, a personagem principal de sua obra autobiográfica.

Autora realiza verdadeira imersão em seu novo livro (Foto: Reprodução/Cia das Letras).

Autora realiza verdadeira imersão em seu novo livro (Foto: Reprodução/Cia das Letras).

Bechdel analisa as últimas décadas de sua vida adulta e, entremeadas a elas, suas reminiscências da infância e da adolescência, sob o escrutínio crítico apurado pelo processo da terapia e também por suas leituras na área de psicanálise – das quais se destaca o nome de David Winnicott, uma espécie de salvaguarda da autora em sua jornada por sua própria mente. Todas as áreas de sua vida são perpassadas, inclusive seus relacionamentos amorosos e as atribulações de sua vida profissional. Mas são todos termos acessórios. O mergulho de Bechdel é nas águas profundas do entendimento desses conflitos com sua figura materna: uma mulher distante, muitas vezes fria, que parecia, em muitos momentos, não conseguir lidar com a frustração da vida doméstica e de um casamento infeliz.

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Um trecho da obra em pdf

Há uma linearidade singular na obra; os eventos não são narrados em ordem cronológica, mas de acordo com o processo de compreensão pelo qual Bechdel passa. O que guia a narrativa é o esclarecimento que ela gradualmente alcança. Cada capítulo é nomeado a partir de termos e expressões da linguagem psicanalítica, que delimitam qual aspecto da relação entre as duas está sendo esmiuçado ali em particular. Expectativas, frustrações, a compreensão da mãe enquanto outra pessoa, entre outras trocas; algumas, inclusive, compreendidas no decorrer da história, sob o prisma da experiência vinda com a idade e com o processo em si – o que lhe oferece certas perspectivas de tréguas, tanto com os outros quanto consigo mesma.

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Com isso, Você É Minha Mãe? se torna um livro ainda mais íntimo. Bechdel expõe não apenas os fatos concretos de sua vida, como também suas emoções e seu inconsciente; essa exposição ganha alguns contornos de surrealidade quando a autora narra, na abertura de cada capítulo, sonhos relacionados diretamente ao conflito que está em questão. É interessante notar também como as sarjetas, do início e do final de cada capítulo, são pretas; enquanto os sonhos iniciam cada parte do livro, elas são finalizadas com reflexões de Bechdel, mais perceptivas, nas quais há uma tentativa de racionalizar – no sentido de organizar e expressar – suas emoções diante dos fatos e dos processos mostrados até ali.

A estrutura consciente x inconsciente, adormecida x desperta, parece ter a intenção de explorar ao máximo a mente da autora. Dessa forma, o livro se torna uma espécie de prolongamento de seu processo de análise, organizando seus sentimentos e suas reflexões, no sentido de expurgá-los. Tanto que o próprio processo de criação de ambos os livros (esse e Fun Home) são mostrados por ela, em todas as suas dificuldades, seus temores – mas também toda a sua necessidade.

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Os desenhos de Bechdel também estão melhores do que nunca. Há uma nítida evolução em seu traço e em suas composições de página, bem mais refinados do que em seu livro anterior. Esse aspecto, aliado à sua narrativa singular, torna Você É Minha Mãe? uma verdadeira experiência de imersão. Uma obra que, caso não tenha ajudado Alison a resolver seus conflitos, com certeza elevou seu trabalho, enquanto artista, a um novo patamar de inventividade, beleza e sensibilidade. Uma grande obra – que se torna indispensável se você tem problemas com sua mãe.

voceVOCÊ É A MINHA MÃE – UM DRAMA EM QUADRINHOS
De Alison Bechdel
[Quadrinhos na Cia./Companhia das Letras, 304 páginas, R$ 54 / 2013]
Tradução: Érico Assis

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