Bisbilhotar as prateleiras das revendedoras de DVD’s pode ser um esporte divertido para cinéfilos em busca de filmes curiosos e pouco divulgados. Foi assim que me deparei com Queer Duck, o Filme, essa divertida animação com as peripécias de um patinho gay, escrita pelo mesmo criador de Os Simpsons, Mike Reiss, e desenhada por Xeth Feinberg. Queer Duck é uma criação da Icebox, site idealizado para divulgar desenhos animados da produção independente. Os curtas, todavia, fizeram tanto sucesso, junto aos internautas, que passaram a ser exibidos na televisão norte-americana, após os episódios da série Queer as Folk, que no Brasil foi veiculada por quatro temporadas, com o título de Os Assumidos, pelo Cinemax.

O longa-metragem é um desenho humorístico-musical que retoma os personagens dos filminhos, de maneira divertida e criativa, e brinca com uma série de estereótipos sobre a homossexualidade. Seus autores não são gays, mas isso não impede deles jogarem com essas questões de uma forma inteligente e desprovida de preconceitos ou pudores. Além disso, fazem inúmeras referências a filmes clássicos, desenhos da Disney, musicais e ícones cultuados pela cinefilia gay. Basta ouvir a musiquinha de abertura, uma deliciosa paródia ao tema de abertura do desenho Manda Chuva, interpretada por Ru Paul, para perceber o que vem pela frente.

Queer Duck é um enfermeiro casado com um jacaré, o Openly Gator (trocadilho com a expressão “fora do armário” em inglês), e tem como amigos o urso Bi Polar Bear (alusão aos gays peludos e gordinhos) e o dono de um antiquário, com ares de nobre inglês, o gato Oscar Wildcat (outra brincadeira com um ícone da cultura gay). Para completar, o patinho biba tem uma irmã sapatão, a caminhoneira Melissa. O filme tem como marca a irreverência e, já nos primeiros minutos, tira o maior sarro desses pregadores religiosos que adoram propagar aos quatro ventos que são capazes de “curarem” homossexuais. O entrevistado de um programa na televisão diz que há seis meses não é mais gay, e Queer Duck mostra a calça que o “convertido” esquecera na festinha nada comportada que ele dera na noite anterior! Hilário.

O DVD traz ainda extras bem interessantes para quem desejar conhecer a trajetória do desenho. Tem cinco curtas impagáveis do projeto original e depoimentos dos realizadores sobre a elaboração dos desenhos, a escolha dos atores para as vozes dos personagens, além de outras informações curiosas sobre o filme. Alguns conselhos: veja o desenho na versão original legendada. Evite vê-lo dublado, pois se a tradução para as legendas não compromete o teor da história, quem assinou o texto para dublagem não tinha a menor noção do que estava fazendo, desconhece totalmente o universo ao qual o desenho se refere, e inúmeras piadas ficaram completamente sem sentido. Também não vá deixar o DVD à toa para que seu irmãozinho e os coleguinhas, acidentalmente, o assistam, achando que é um desenho do Planeta Xuxa. Eles podem até gostar, mas seus pais certamente pensarão que você está querendo perverter criancinhas inocentes.

QUEER DUCK – O FILME | Queerduck
Mike Reiss
(Animação, 72 min, EUA, 2006)

Queer Duck – I’m Coming Out!

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[+] Alexandre Figueirôa é doutor em cinema pela Sorbonne (França) e autor dos livros Cinema Novo: A Nova Onda do Jovem Cinema e Sua Recepção na França (Papirus) e Cinema Pernambucano: Uma História em Ciclos (FCCR). Atualmente é professor da Pós-Graduação em Cinema da Universidade Católica de Pernambuco. Escreve nesta coluna sobre os últimos lançamentos em DVD.

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