No calor dos acontecimentos do ano de 1968, o diretor italiano Bernardo Bertolucci era um cineasta ainda com o nome em consolidação. Antes de fazer cinema, tinha conquistado alguma fama como poeta, até tornar-se, em 1961, o assistente de direção de Píer Paolo Pasolini, no filme Accatone (no Brasil, Desajuste Social). Em 1962, dirigiu La Commare Seca e Antes da Revolução, obra que lhe deu reconhecimento e revelou seu comprometimento político, radicalizado em Partner, obra que agora chega em DVD pela Versátil.

O filme é radical em diversos aspectos, sobretudo, pela ousadia na experimentação. Baseado no romance O Duplo, de Fiodor Dostoievski, Bertolucci fez uma adaptação livre da história do escritor russo, para contar a trajetória de Jacob, um professor de teatro, cuja existência solitária é abalada pelo aparecimento de uma réplica de si, que o incentiva a romper com as normas de comportamento e a ter um maior engajamento político. Não é, portanto, uma obra fácil. Ela está repleta de referências às inquietações típicas do período e dialoga com o teatro e o cinema, sempre expondo, por meio de uma narrativa densa e complexa, as contradições do personagem, vivido com intensidade visceral pelo excelente ator francês Pierre Clémenti.

Dessa maneira, vamos nos deparar em Partner com todos os dilemas que marcaram a geração de 68, quando as palavras de ordem eram “é proibido proibir”, “é vedado vedar” e “liberem as paixões”. Bertolucci não faz concessões e vai buscar inspiração tanto em Antonin Artaud, quanto nos cineastas soviéticos teóricos da montagem. É um filme para ser visto sob a perspectiva do contexto do período em que foi rodado, quando ser revolucionário era tanto contestar os padrões estéticos vigentes, quanto preparar um coquetel molotov, por sinal, uma das suas cenas mais curiosas. É também uma interessante, e instigante, confrontação com os processos da representação artística, em que o ato de filmar se mostra um desdobramento das múltiplas possibilidades expressivas, em que o autor é sempre um poeta em embate com sua própria criação.

Nessa edição da Versátil existe um problema com o formato da tela, pois o filme foi rodado em Techniscope. O Techniscope era um processo de tomadas bastante empregado nos anos 60, em que o filme 35 mm avançava na câmera de duas perfurações por imagem no lugar das quatro perfurações usuais. Isso dava uma imagem negativa no formato Scope. Para obtenção de cópias de projeção, a imagem era, em laboratório, comprimida horizontalmente (anamorfose) e ampliada na dimensão do Scope, e que foi muito usado, por medida de economia, nos famosos westerns spaghetti italianos. Mas, na transcrição para o formato widescreen do DVD, as bordas laterais acabaram sendo suprimidas o que, em algumas cenas, faz com que não vejamos o plano por completo.

Esse senão técnico, todavia, é compensado pelos extras que acompanham o filme, com destaque para uma longa entrevista com o diretor Bernardo Bertolucci. Ela inicia-se com imagens feitas na época, ainda nos locais das filmagens, e continua com o cineasta, nos dias de hoje, analisando todo o processo de confecção do filme. É nela que tomamos conhecimento da participação dos atores da famosa escola de cinema Centro Experimental de Roma; de como o ator Pierre Clémenti trazia, para Bertolucci, informações dos últimos acontecimentos das ruas de Paris, que eram imediatamente incorporados ao filme; e dos experimentos e escolhas estéticas do realizador que, mais tarde, iriam marcar sua filmografia. Para quem espera do cinema mais do que uma historinha bem contada, ver Partner pode ser uma ótima ocasião para refletir sobre os rumos da sétima arte e o que isso pode contribuir para o confuso cenário do audiovisual contemporâneo.

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Bernardo Bertolucci
[Drama, 105 min, Itália, 1968]

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[+] Alexandre Figueirôa é doutor em cinema pela Sorbonne (França) e autor dos livros Cinema Novo: A Nova Onda do Jovem Cinema e Sua Recepção na França (Papirus) e Cinema Pernambucano: Uma História em Ciclos (FCCR). Atualmente é professor da Pós-Graduação em Cinema da Universidade Católica de Pernambuco. Escreve nesta coluna sobre os últimos lançamentos em DVD.

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