Foto: Divulgação

O inverno paulistano não é bem o que se pode chamar de inverno. Desde o início de julho, apenas alguns poucos espasmos meteorológicos, provocados por frentes frias mixurucas, conseguiram chegar ao Sudeste. Resultado: o céu da Paulicéia ficou azul e sem nuvens, o sol brilhou quase sempre, fez calor, a umidade relativa do ar despencou e o ar poluído deu o tom. Só faltou uma praia de verdade. Mas, como por aqui tudo é mesmo meio fake, a pedida foi ir ao Ibirapuera, e na exposição Bossa na Oca, ver a praia de mentirinha que foi instalada por lá para lembrar os 50 anos do movimento que nasceu no Rio de Janeiro e se espalhou pelo Brasil e pelo mundo, e é referência, até hoje, quando se fala em música brasileira.

A mostra instalada no Ibirapuera em louvor à Bossa Nova é um dos muitos eventos culturais que desfazem a idéia consagrada de que paulistas e cariocas não se bicam. O Rio de Janeiro invadiu SP em grande estilo. Para os fãs de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, João Gilberto, e outros, a exposição é um passeio com charme e graça à altura da beleza da garota de Ipanema. A Bossa na Oca é uma superexposição repleta de recursos tecnológicos que consegue transformar a nostalgia em um encontro vibrante e atual graças aos inúmeros recursos tecnológicos de áudio e vídeo. Impossível não ficar encantado. A cada passo somos levados por apelos sensoriais a acompanhar a trajetória do movimento, imersos nos acordes musicais que fizeram a cabeça de muitas gerações.

Se por acaso você for a São Paulo até o início de setembro, não deixe de curtir esse simulacro de Rio de Janeiro. Além da reprodução da praia, tem também um show virtual com projeções de Tom Jobim, Frank Sinatra e Ella Fitzgerald e uma espécie de enorme chaise loungue, onde um vídeo com imagens marítimas é projetado na parede da Oca, enquanto são tocados discos de João Gilberto. No Pavilhão da Bienal, tem também uma mostra interativa com fotos da época e uma seleção com cerca de 250 capas de discos de vinil e ainda fones para ouvir muita bossa nova.

Mas, se você é mais chegado em literatura, o Rio de Janeiro do século XIX e início do século XX pode ser revivido pelas mãos de nada menos um dos maiores escritores brasileiros: Machado de Assis. O Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz, está abrigando a exposição “Mas esse capítulo não é sério”, inspirada no romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, homenagem ao centenário da morte do seu autor. Dividida em capítulos, retrata o estilo de vida erudito do autor de Dom Casmurro, Quincas Borba e Helena, e, claro, de quebra, nos leva a conhecer um pouco de como era a vida carioca nos tempos de Assis.<

Para completar a invasão carioca, em frente à Estação da Luz, na Pinacoteca do Estado, tem ainda a exposição “Antoine Taunay no Brasil: uma Leitura dos Trópicos”. Tão importante quanto Debret, embora sem compartilhar da mesma fama, Taunay integrou a Missão Francesa convidada por dom João VI para retratar o Brasil. A mostra já passou pelo Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro e tem cerca de 70 obras do artista.

Porém, se você, estiver cansado de tanta “identidade nacional fluminense”, não se desespere. No Museu de Arte Moderna, tem a primeira exposição de grande porte na América Latina dedicada ao francês Marcel Duchamp. Criador dos ready-made, o criativo e irreverente artista revolucionou as artes no início do século XX, alçando rodas de bicicletas, urinóis e outros objetos à condição de obra de arte. Falar da arte antes e depois de Duchamp não é, portanto, um exagero. Assim, vindo a São Paulo, além de comer pizza, não dispense um chopp. Paulistas e cariocas estão de bem neste inverno calorento.
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[+] Alexandre Figueirôa é doutor em cinema pela Sorbonne (França) e autor dos livros Cinema Novo: A Nova Onda do Jovem Cinema e Sua Recepção na França (Papirus) e Cinema Pernambucano: Uma História em Ciclos (FCCR). Atualmente é professor da Pós-Graduação em Cinema da Universidade Católica de Pernambuco. Escreve nesta coluna sobre os últimos lançamentos em DVD.

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