Domingo à noite, entrar numa sala de cinema para rever uma cidade da memória dos anos 80 é uma tentação a não ser recusada. Encontrar o Joy Division, muito menos. Só em São Paulo, Manchester e a transição entre o tédio gótico e o pop rock faziam um certo sentido para mim naquele momento, sobretudo, se isso se consubstanciaria por meio de recortes de uma possível realidade. Poderia ter ido numa outra direção, rumo a outro filme: Control, em que o mesmo ícone/ídolo, quase um anjo decaído, repaginado, ganha vida, aciona frissons e assume, em novos tons, a provocação musical e espiritual de uma época, agora revestida por um processo de edulcoração estética. A crueza do documentário, apesar de uma inevitável fascinação pelos mortos, contudo, re-significa com mais vitalidade aquele instante existencial de jovens suburbanos, flertando com o punk do Sex Pistols e dos Buzzcocks e que, quase por acaso, instauraram uma diferença no panorama das harmonias, cuja repercussão mundo afora foi um fato. E isso bastou para definir a decisão.

Sim, fui um desses, que, tomado pela sonoridade e uma inquietação inusitada, nos idos dos 80, reverenciei Closer e Ian Curtis. Embora numa atitude fugaz tenha, tal e qual os companheiros da banda, olhado para frente e instituído o New Order como um prazer das noites. E é nisso, a meu ver, que o documentário de Grant Gee demonstra habilidade narrativa, pois realiza essa bifurcação de vórtices para voltar no tempo, sem traumas. Ao mostrar que Love Will Tear us Apart, o maior hit do Joy Division, já prenunciava uma transformação na batida e no ritmo a qual o grupo sucessor imprimiu à perfeição em Perfect Kiss e a tantas outras composições, é uma sacada certa. Associar a banda ao cenário de uma cidade decadente e agonizante, descobrindo-se emblema de um movimento, dá uma dimensão sócio-cultural no que poderia ficar restrita a eflúvios de rebeldia infantil. A banda espelha essa interpretação e expor isso sem ser chato é uma virtude.

Como qualquer documento filmado, boa parte dos protagonistas está lá, dando sua versão das emoções e, obviamente, tendo como eixo Ian Curtis, o suicida. A esposa, apenas citada, pairando como uma sombra; a amante belga; os produtores musicais; os companheiros Bernard Summer, Peter Hook e Stephen Morris, desfiando quem eram e o que pensavam do cara com quem conviviam, cumprem seus papéis de etnógrafos casuais. O fundo preto e o tom solene – sepulcral – desses depoimentos fortalecem as inevitáveis incursões no ontem. Críticos reclamaram de idolatria ao morto. Bom, mas o filme é sobre o Joy Division e a banda era enfeitiçada pelo seu vocalista, cujos gestos no palco, interpretados como uma dança, mas uma dança quase primitiva banhada de angústia, fascinava e deixava-nos estupefatos. Nós, tão distantes, nos sentíamos assim, imaginem os que o viam todos os momentos, compartilhavam os quartos, os shows e ainda se abismavam com os surtos epiléticos, os poemas… ou simplesmente viam um produto a ser vendido.

Tanta recomposição de fragmentos, como não poderia deixar de ser, emana laivos de nostalgia. Rever aquelas imagens borradas, ouvindo sons deixados para trás e pensar nas sessões do Carbono 14 e nas hordas notívagas do Madame Satã da Paulicéa Desvairada dos anos oitenta é, no entanto, inesperadamente gratificante. Um pouco antigo, é verdade, mas, perdoem-me pela lógica deleuziana, como ultrapassamos a pós-modernidade, o eterno (entre limites os quais desconhecemos, claro) é uma possibilidade tão pertinente quanto o segundo (unidade de tempo). A prova são as criaturas, com o prazo de validade ainda por vencer, atraídas sabe-se lá por qual razão, sentarem-se ao nosso lado e também se interessarem por essa fresta luminosa e terem sua aulinha de cultura pop, tirarem suas conclusões, incorporarem algumas mensagens de acordo com seus sentidos. Isto é bom.

Um filme capaz de atiçar o juízo e refazer o clima de um mundo que parecia esgotado e o torna palpável, mesmo com imperfeições, deve ser considerado. Manchester, hoje, é uma pálida lembrança dessa cidade refeita. É só ir lá e comprovar a inexistência de algo ao menos parecido ao que foi a Factory. Nada, porém, contra o efêmero, e o formato documentário, nesse sentido, quando é sincero atesta sem remorsos que o tempo escorreu. Ouçamos o Joy Division, o New Order, o Franz Ferdinand e vamos em frente. E quando puder, no cinema, baixando pela Internet, ou em qualquer outra dimensão, veja esse documentário e entenda melhor o que somos agora.

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[+] Alexandre Figueirôa é doutor em cinema pela Sorbonne (França) e autor dos livros Cinema Novo: A Nova Onda do Jovem Cinema e Sua Recepção na França (Papirus) e Cinema Pernambucano: Uma História em Ciclos (FCCR). Atualmente é professor da Pós-Graduação em Cinema da Universidade Católica de Pernambuco. Escreve nesta coluna sobre os últimos lançamentos em DVD.

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