Na decadente cena do pós-punk, no início da década de 1980, um cineasta de ascendência húngara, nascido em Ohio, nos Estados Unidos, conquistou as telas do planeta e se tornou um dos diretores badalados do período. Jim Jarmusch realizou alguns dos filmes mais cultuados pelos cinéfilos ávidos por obras que retratassem a ressaca dos agitados anos precedentes, entre os quais se destacaram Estranhos no Paraíso e Daumbailó. Agora, a Magnus Opus faz chegar ao mercado brasileiro o primeiro longa-metragem de Jarmusch: o curioso Permanent Vacation. O filme mostra três dias na vida do jovem Aloysious Parker. Um rebelde sem causa que não estuda, não trabalha, e preenche seu tempo andando pra lá e pra cá, conhecendo pessoas, cometendo pequenos delitos, e espantando seu tédio ouvindo Chet Baker, de quem é fã. Mas é claro que o rebelde de Jarmusch é bem diferente da galeria de personagens jovens angustiados à la James Dean que povoam o cinema. Ele lê Lautréamont (Os Cantos de Maldoror) com desdém, vagueia por ruas e becos sujos, dorme ao relento e suas palavras apenas revelam a bem-humorada banalidade da vida, algo que é característico de toda obra de Jarmusch.

O personagem foi inspirado no ator Chris Parker, protagonista do filme, cuja história pessoal não era muito diferente de Aloysious. Foi ele quem sugeriu o nome do personagem e os diálogos foram retirados das gravações que Jarmusch fez com ele enquanto escrevia o roteiro. No elenco, além de Parker, temos o músico John Lurie, com o seu inseparável saxofone, e que, mais tarde, reapareceria em outros filmes do diretor.

O clima de non sense, reforçado pelos planos lentos e situações bizarras (a que Aloysious aparece dançando para sua garota é simplesmente hilariante), não deixam de traduzir um certo tom de experimentação, próprio de quem está dando seus primeiros passos na direção e faz de cada seqüência uma espécie de exercício estilístico para testar suas habilidades. Contudo, é interessante verificar como alguns temas caros ao cineasta já estão esboçados nesse seu primeiro trabalho. Os fãs de Jarmusch, provavelmente, vão babar.

PERMANENT VACATION | Permanent Vacation
Jim Jarmusch
[Drama, 75 min, EUA, 1980]

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[+] Alexandre Figueirôa é doutor em cinema pela Sorbonne (França) e autor dos livros Cinema Novo: A Nova Onda do Jovem Cinema e Sua Recepção na França (Papirus) e Cinema Pernambucano: Uma História em Ciclos (FCCR). Atualmente é professor da Pós-Graduação em Cinema da Universidade Católica de Pernambuco. Escreve nesta coluna sobre os últimos lançamentos em DVD.

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